Duas mulheres, já não tão jovens, estavam sentadas juntas e conversando sobre a vida que tiveram. A primeira mulher tinha se casado jovem e criara vários filhos. Ela e seu marido trabalharam com afinco para ter um lar e sustentar sua família. Passaram a vida naquela casa em um vale próximo a um rio. Nenhum dos dois tinha viajado para qualquer lugar que fosse muito longe de seu vale. Conforme o tempo foi passando, seus filhos cresceram e mais tarde tiveram seus próprios filhos. Mas todos os anos e anos de trabalho pesado finalmente causaram danos para a saúde de seu marido, e ele acabou morrendo.

A segunda mulher, por outro lado, tinha se casado com um homem que era um importante funcionário de alto escalão. Suas atribuições faziam com que ele se ausentasse de casa para lugares distantes. Ela viajava, com freqüência, com o marido, e, portanto, visitara muitas terras e conhecia povos de diferentes origens. Apesar de sua casa estar cheia de tesouros desses locais afastados, não havia filhos. Seu marido não quisera ter filhos, com receio de que prejudicassem sua carreira, ao que ela aquiesceu.

Então conforme as mulheres conversavam, ocorreu-lhes uma questão. Por que as coisas não se passaram de maneira diferente? A idéia de que pudessem ter tido uma vida diferente lhes incomodava. Vendo-se incapazes de encontrar uma resposta, decidiram procurar uma senhora muito idosa, muito conhecida por sua sabedoria e bondade.

A velha senhora ouviu as histórias das duas mulheres, e também suas questões sobre o que poderia ter acontecido. Não ficou surpresa ao ouvi-las descrever sua vida, os sonhos realizados e os não realizados. Quando terminaram, foi até um armário e tirou de lá dois cobertores tecidos a mão, igualmente cinzas e sem enfeites. Deu um cobertor para cada mulher e, em seguida, deu-lhes agulhas e muitos novelos de linhas de diferentes cores.

Enfeitem seus cobertores, cada uma o seu, instruiu a velha senhora. Quando tiverem terminado tragam-nos a mim. E, então, conversamos novamente.

As duas mulheres ficaram um pouco surpresas, mas fizeram conforme a velha senhora havia lhes instruído.

Muitos dias se passaram e as mulheres voltaram. Cada uma tinha decorado um lado de seu cobertor. A velha senhora ficou contente.

Vamos ver os seus cobertores, disse ela, pendurando-os na parede.

Bem, bem, vejamos, ela disse sorrindo com discrição. Exatamente como eu havia pensado. Apesar de eu ter dito para enfeitarem seus cobertores, cada uma contou a história da sua vida.

E de fato foi o que fizeram.

No cobertor da primeira mulher havia uma série de cenas, pequenas ilustrações de sua vida. Primeiro havia um homem e uma mulher, em seguida bebês e crianças e também crianças que viraram adultos, com seus próprios bebês. Um homem e uma mulher cultivando a terra e trazendo a colheita: uma casa que ficava perto de um rio, em um vale, sob um céu aberto. Ela tinha usado quase todas as cores dos novelos de linha: verdes vibrantes, azuis resplandecentes, tons de lilás reconfortantes e laranjas suaves.

A segunda mulher também tinha utilizado as mesmas cores, apesar de que, como era de se esperar, as pequenas ilustrações de sua vida fossem diferentes. Em seu cobertor havia representações de trens, barcos e regiões desérticas, cordilheiras de montanhas e grandes cidades, e de pessoas com vários estilos de vestimentas e animais de formatos e cores diferentes.

Vocês vieram até mim e perguntaram se sua vida deveria ter sido diferente, creio que cada uma respondeu à sua própria pergunta. A vida de cada uma poderia ter sido diferente, se vocês tivessem feito escolhas diferentes; se tivessem ido para a esquerda em lugar da direita, se tivessem dito não em lugar de sim. Se a vida de vocês fosse inaceitável e vocês estivessem realmente infelizes com ela, teriam contado a história de sua vida como gostariam que ela tivesse sido. Entretanto, vocês a contaram como ela foi na realidade. Vocês poderiam ter modificado as suas histórias, mas não a fizeram. Agora, podem pensar sobre as escolhas que farão a partir desse momento.

As duas mulheres levaram seus cobertores para casa, e cada uma encontrou uma parede para pendurá-los. Todas as manhãs, ao se levantarem, olhavam para seus cobertores e encaravam o dia com um sorriso. Toda noite olhavam para seus cobertores e sussurravam uma prece em agradecimento.

E, se algum dia você fosse visitá-las e visse os cobertores, é muito provável que ficasse tão atraído pelas imagens e cores que nem chegasse a perceber que os cobertores eram cinza antes de serem trabalhados.

Velho Falcão – Keep Going – Joseph M. Marshall III