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O Xamanismo e a Arrogância

A Ilusão da Montanha mais alta.

Visão do Xamanismo  Ancestral:

Entre os povos da Terra, a arrogância é vista como um vento do norte que sopra frio e orgulhoso sobre o coração humano.
É o vento que tenta convencer a montanha de que ela é mais alta que o céu.
Mas o xamã sabe que a montanha não se eleva para ser maior que as outras — ela apenas se ergue para tocar o Sol.
A arrogância, para os antigos, é um espírito que surge quando nos esquecemos da teia da vida — quando acreditamos ser separados, isolados, autossuficientes.
Ela é o eco do ego, que grita: “Olhem para mim!” enquanto o coração sussurra: “Eu me perdi.”
O remédio sagrado contra esse espírito é a humildade da Águia, que voa alto não para dominar, mas para ver mais longe.
A verdadeira visão nasce quando a alma se curva diante do Grande Mistério.

A Natureza do Ego:

A arrogância é a ilusão da superioridade, a máscara dourada de uma ferida profunda.

Ela nasce quando o ego, desconectado da essência, precisa se afirmar como “alguém” para não sentir o vazio de quem esqueceu o Ser.
É o medo disfarçado de força.
É a insegurança vestida de certeza.
É a necessidade de estar certo, porque o ego teme desaparecer se for humilde.

A mente arrogante compara, separa e julga.
Ela busca poder porque teme o amor.
Mas o amor, quando é verdadeiro, não precisa vencer — apenas iluminar.

A Compreensão Consciente:

Toda vez que nos colocamos acima de alguém, nos afastamos da unidade que nos sustenta.
A arrogância é o espelho invertido da vergonha: ambos são filhos do esquecimento de quem somos.
A cura não é o rebaixamento, mas o retorno à presença.
“O ego quer sempre estar certo.
O Ser não precisa estar certo — ele simplesmente é.”
A humildade não é autodepreciação.
É o reconhecimento silencioso de que todos somos expressões do mesmo Espírito respirando formas diferentes.
O sábio não diz “eu sei”; ele sorri e continua aprendendo.

Exercício Integrativo — O Vento da Montanha:
1. Sente-se em silêncio e feche os olhos.
2. Imagine-se no topo de uma montanha. O vento sopra forte — é o vento da arrogância, que traz julgamentos, certezas e comparações.
3. Inspire esse vento profundamente e o deixe atravessar o seu peito.
4. Expire lentamente, devolvendo-o à Terra, dizendo internamente:
“Eu não sou melhor do que ninguém.
Cada ser tem seu lugar no círculo da vida.”
5. Ao final, toque o chão e agradeça:
“Grande Espírito, ensina-me a ser vento, não tempestade.”

A arrogância cai quando o coração se ajoelha diante do sagrado.

Aquele que reconhece a grandeza da vida não precisa provar a própria importância.
A montanha que se curva para o vento continua sendo montanha — mas agora conhece a suavidade do céu.

Sabedoria Ancestral do Xamanismo para o Ego.

Arrogância – A Ilusão da Montanha mais alta.

Carlos Fernandes

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O Cachimbo no Xamanismo

A Oração que Silencia a Tempestade Interior.

Quando o sopro do coração se torna ponte entre Céu e Terra.

“A fumaça do Cachimbo sobe como uma prece e volta como silêncio.
Quem aprende a ouvir o silêncio, entende todas as respostas.”

Sabedoria Ancestral do Xamanismo:

Entre os povos nativos, o Cachimbo Sagrado é mais do que um instrumento:
é um ser vivo, um espírito de reconciliação.

A haste representa o masculino — o verbo que direciona, a intenção que guia.
A fornilha é o feminino — o ventre da Mãe Terra, receptiva, acolhedora.
Quando ambos se unem, nasce o Círculo Sagrado: o Cachimbo Vivo,
onde o Céu e a Terra se reconhecem novamente como um só ser.

Ao soprar o Cachimbo, o xamã não fala ao vento: ele conversa com o invisível.
Cada sopro é uma oferenda, cada pausa é escuta.
A fumaça que se eleva é o símbolo do Espírito em movimento —
lembrando-nos que tudo o que nasce do coração sobe em direção à Luz.

O Cachimbo ensina que a oração é um ato de equilíbrio.
Não é pedir — é alinhar.
Não é falar — é lembrar.
É o instante em que o humano se curva diante do Mistério
e o Mistério responde com paz.

A Compreensão Contemporânea da Alma:

Vivemos tempos em que a palavra se tornou barulho.
Fala-se muito, mas ora-se pouco.
Pedimos, mas esquecemos de ouvir.
A mente moderna se perdeu em pensamentos circulares —
buscando paz onde há apenas ruído.

O ensinamento do Cachimbo ecoa forte neste tempo:
orar é silenciar a mente para ouvir a alma.

A oração verdadeira não é feita com os lábios, mas com o sopro.
É respirar conscientemente, permitindo que o ar entre e saia
como um cântico invisível entre o Ser e o Todo.

A cada inspiração, o Céu desce.
A cada expiração, a Terra sobe.
No encontro entre ambas, nasce a paz.

“Não é o mundo que precisa se acalmar.
É o teu sopro que precisa lembrar o ritmo do Grande Espírito.”

A Integração Simbólica:

O Cachimbo ensina o poder da unificação dos opostos:
ação e rendição, palavra e silêncio, matéria e espírito.
Ele nos recorda que a cura acontece quando a intenção humana
se entrega à sabedoria divina.

Orar não é fugir da vida — é habitar a vida com presença.
Oração é quando o ego se cala e o coração fala.
E o que o coração diz é simples:

“Eu aceito. Eu confio. Eu sou parte do Todo.”

A verdadeira paz interior não é a ausência de conflito,
mas o espaço onde o conflito se dissolve na consciência.

Meditação Guiada:
O Sopro da Oração Viva
1. Sente-se em silêncio.
Apoie as mãos sobre o peito e sinta o pulsar do seu coração.
2. Inspire profundamente, imaginando que está soprando a vida para dentro de si.
3. Expire lentamente, como se estivesse oferecendo uma prece ao universo.
4. A cada respiração, repita mentalmente:
“Com o sopro da vida, eu me alinho ao Grande Mistério.
Que minha mente se curve diante da sabedoria do meu coração.”
5. Permaneça nesse fluxo de respiração,
até sentir que o corpo se torna leve e o pensamento, transparente.

Sinta: você é o Cachimbo.
Através de você, a Terra fala com o Céu.

Exercício Integrativo:
Transformando o Diálogo Interno em Oração

Durante o dia, observe sua mente.
Quantas vezes ela fala sem propósito, julga, compara, reclama?
Esses pensamentos são pequenas nuvens de fumaça densa.

Quando perceber isso, respire conscientemente e transforme o ruído em prece:

“Que minha palavra traga paz.”
“Que meu olhar veja o sagrado em tudo.”
“Que o meu silêncio seja fértil.”

Assim, o diálogo interno se purifica —
e a vida inteira se torna uma oração viva em movimento.

Quando o Cachimbo se ergue, o vento muda.
A fumaça desenha espirais que unem o céu ao coração humano.
E no centro do silêncio, o Espírito sorri.

“Oração não é o que pedes,
mas o que te tornas quando pedes com o coração desperto.”

Aquele que aprende a orar com o sopro,
aprende também a ouvir o que o vento diz.
E o vento sempre responde:
“A paz que procuras já está respirando dentro de ti.”

Para refletir e praticar:

Observe sua respiração — quantas vezes ela é automática, sem consciência?

Escolha um momento do dia para orar em silêncio, sem pedir nada. Apenas agradecer.

Toda vez que sentir turbulência, lembre-se: “Eu sou o sopro, não a tempestade.”

Quando falar, que suas palavras saiam como fumaça sagrada — leves, necessárias e com propósito.

Sabedoria Ancestral para a Alma Contemporânea
O Cachimbo — Oração e Paz Interior

Carlos Fernandes

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Um guia de astronauta da Nasa para mudar o relógio biológico

Um guia de astronauta da Nasa para mudar o relógio biológico

O que a vida na esta estação espacial internacional pode nos ensinar sobre o relógio circadiano.

“Você só sente a velocidade quando está subindo”, diz o ex-astronauta da Nasa Michael López-Alegría sobre ser lançado ao espaço. “São 8 minutos e 50 segundos de uma aceleração incrível. E então, de repente, isso desaparece e você fica sem peso. É incrivelmente pacífico.”

Veterano de quatro missões da Nasa, López-Alegría já passou por muitos lançamentos espaciais. Tendo passado 215 dias consecutivos no espaço, ele descreve sua quinta viagem à Estação Espacial Internacional (ISS) em 2022, como comandante da Missão Axiom 1, como retornar à casa de infância.

“Havia algo familiar e confortável em voltar”, diz ele.

Enquanto os astronautas a bordo da ISS giram sobre nossas cabeças a cada 90 minutos, suas manhãs começam junto com as de muitos britânicos, acordando cedo às 06h UTC. O dia de um astronauta é cheio de experimentos científicos e exercícios em esteira, bicicleta ergométrica ou aparelhos de resistência, pois é necessário se exercitar por duas horas e meia diárias para mitigar os efeitos da microgravidade no corpo.

Às 21h30, os astronautas vão dormir, e embora seus sacos de dormir fiquem presos na parede, López-Alegría conta que ainda experimentava “sonhos sem peso” quando estava no espaço, “embora esses tenham desaparecido algum tempo depois que voltei à Terra”. Se o som dos equipamentos fosse alto, ele usava uma solução bastante familiar: máscara para os olhos e tampões de ouvido.

Mas há uma diferença crucial na forma como os habitantes da ISS experienciam “dia” e “noite” em relação a nós, na Terra. A ISS orbita nosso planeta a impressionantes 28.000 km/h. Se você não tivesse nada para fazer além de olhar pela janela, diz López-Alegría, veria um nascer ou pôr do sol a cada 45 minutos – 16 de cada em um período de 24 horas, para ser exato. Observar a beleza da Terra desse ponto de vista único, com o brilho frequente no horizonte, pode ser “absolutamente espetacular”. Mas, quando se trata de regular o relógio biológico, medir o dia pelo movimento do Sol é “bastante impraticável”, brinca ele.

E esse é apenas um dos vários desafios cronológicos enfrentados pelos astronautas. Em qualquer missão, eles precisam primeiro se adaptar ao horário de lançamento, às vezes encaixar um rápido cochilo na nave a caminho da ISS e, depois, sincronizar rapidamente com uma nova rotina ao chegarem lá.

O relógio interno

Dr. Steven Lockley, neurocientista e professor associado de Medicina no Brigham & Women’s Hospital e na Harvard Medical School, é especialista em ritmos circadianos, sono e nos efeitos da luz sobre o cérebro. Ele atua como consultor da Nasa há mais de 10 anos. Segundo ele, a chave para ajudar os astronautas a navegar por esses fusos horários em constante mudança está na ciência circadiana.

A ciência circadiana é um termo historicamente associado ao sono, mas que possui significado muito mais amplo. Como seres humanos, somos regidos por um conjunto de ritmos altamente sincronizados, gerados automaticamente por um relógio biológico de 24 horas no hipotálamo. Esses ritmos regulam quase todos os sistemas do corpo – desde ciclos de sono e vigília, padrões de desempenho até metabolismo e imunidade – todos funcionando como diferentes ponteiros controlados por um relógio circadiano central.

Esse relógio opera num ciclo de aproximadamente 24 horas, embora o ciclo de algumas pessoas seja um pouco mais longo, e de outras, mais curto – o que explica os chamados “corujas” e “cotovias”.

Lidando com a interrupção

Nossos ritmos circadianos evoluíram para se sincronizar intimamente com o ciclo natural de luz e escuridão, ajustado por sensores de luz nos olhos. “Quando você vai para o espaço, se afasta do forte ritmo circadiano da Terra, longe dos estímulos de 24 horas proporcionados pelo ciclo luz-escuridão”, explica Lockley.

Se esse relógio é interrompido por mudanças no ciclo luz-escuridão, nosso corpo e mente ficam desestabilizados e tudo começa a funcionar de forma menos eficiente. Isso pode afetar desempenho, concentração e atenção, e Lockley aponta para um crescente corpo de pesquisas sobre os efeitos nos sistemas metabólico e imunológico. E, claro, no ambiente de alto risco e baixa gravidade da ISS, a disrupção circadiana aumenta o risco de erros por fadiga, algo que a Nasa considera prioritário.

Para minimizar esse risco e garantir o melhor desempenho dos astronautas, simula-se na ISS um “dia” de 24 horas usando o Tempo Universal Coordenado (UTC). Para imitar o ciclo luz-escuridão da Terra, foi instalado um sofisticado sistema de iluminação LED, ajustado para diferentes cores que refletem manhã e noite. A luz muda de um branco brilhante enriquecido em azul no início do dia para uma luz avermelhada e suave antes de dormir.

“Expor-se à luz certa, na hora certa, deve ser a base de qualquer programa para resetar ou manter os ritmos circadianos”, afirma Lockley.

De volta à Terra

Reconhecendo que essa ciência também tem aplicações na Terra, Lockley se uniu ao empreendedor de tecnologia Mickey Beyer-Clausen e ao designer de UX Jacob Ravn em 2017 para criar a Timeshifter, uma plataforma de tecnologia circadiana voltada a diversos desafios da vida moderna. Lockley é o cientista-chefe da empresa.

O primeiro produto da Timeshifter foi um aplicativo para lidar com as causas do jetlag, ajudando usuários a “resetar seus ritmos” rapidamente ao viajarem para novos fusos horários. O app oferece orientações personalizadas sobre quando dormir, cochilar, tomar cafeína e, crucialmente, quando se expor à luz ou evitá-la. López-Alegría é investidor da Timeshifter e faz parte do conselho consultivo.

Mais recentemente, a Timeshifter passou a usar esse mesmo algoritmo para apoiar trabalhadores de turnos. Pesquisas associam o trabalho por turnos – que representa até 20% da força de trabalho global – a riscos aumentados de segurança e a condições de saúde como doenças cardiovasculares e diabetes. Lockley e Beyer-Clausen esperam que, com melhor gestão da exposição à luz e das disrupções circadianas, parte desses impactos possa ser minimizada, melhorando a qualidade de vida desses profissionais.

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Aplicativo Timeshifter. Fonte: Timeshifter

Evolução digital

Não são apenas astronautas, viajantes frequentes ou trabalhadores de turnos que podem se beneficiar desses conhecimentos. Em um mundo digital iluminado por luz artificial, enfrentamos uma “crise circadiana”, diz Lockley. Da luz azul dos smartphones e rolagem infinita nas redes sociais durante a noite à poluição luminosa das cidades e à cultura de trabalho híbrido que nos prende por mais tempo – e mais tarde – aos laptops, hoje nossa exposição à luz e escuridão não é natural.

“Nossa biologia simplesmente não acompanhou essas mudanças”, observa Beyer-Clausen.

Então, como reajustar nosso relógio circadiano em vidas tão atarefadas? Lições dos astronautas da ISS sugerem: receber o máximo de luz possível durante o dia, evitar luzes brilhantes e azuladas antes de dormir, manter o quarto escuro e adotar uma rotina e horário consistentes. Embora até López-Alegría admita que isso é mais fácil na teoria. “No espaço, você não está exposto a muitas das tentações que levam a uma vida pouco saudável! Na Terra não é tão fácil.”

Nos próximos anos, Beyer-Clausen imagina um futuro em que nosso relógio circadiano estará no centro de “tudo o que consideramos saúde e bem-estar”, permitindo uma abordagem mais individualizada e precisa para saúde, trabalho, exercícios, alimentação e sono. “A medicina circadiana está se tornando a nova fronteira da medicina personalizada, onde medicamentos, vacinas e até interpretação de exames clínicos podem ser baseados no seu tempo circadiano individual”, concorda Lockley. Enquanto isso, pequenos passos para manter nosso relógio interno em dia podem representar um grande salto para nosso bem-estar a longo prazo.

Fonte: Global Wellness Institute / BBC StoryWorks

Reflexão:

Para tradições xamânicas de diferentes povos (andinos, amazônicos, siberianos e norte-americanos), o ritmo da natureza é a principal referência para o equilíbrio humano. O ciclo do Sol (nascer, meio-dia, pôr do sol) e da Lua (cheia, minguante, nova, crescente) são guias naturais para:
• Atividades práticas: caça, colheita, plantio, preparo de remédios.
• Atividades espirituais: ritos de passagem, danças de cura, cerimônias de fogo ou lua.
• Ritmo corporal e espiritual: rituais ao amanhecer para honrar a luz e práticas noturnas para introspecção.

Na perspectiva xamânica, o desequilíbrio surge quando o ser humano perde seu ritmo natural e deixa de ouvir a Terra e os seus ciclos naturais. A exposição contínua à luz artificial, horários desalinhados e desconexão da natureza seriam formas de “rompimento do fio da vida” que conecta corpo, mente e espírito.

“Nos afastamos tanto dos ciclos naturais que precisaremos de ciência para nos lembrar daquilo que nossos ancestrais já sabiam: viver em sincronia com a Terra é viver em saúde e harmonia.”

As tecnologias como Timeshifter, citadas no texto, surgem para resolver problemas criados por nossa desconexão. Na prática, o que os xamãs nos ensinam é que o maior remédio para o corpo, a mente e o espírito é realinhar nossa vida aos ritmos da Natureza.

Saúde em alta velocidade

Saúde em alta velocidade

Israel se tornou um verdadeiro polo de inovação, tecnologia e startups de bem-estar

Israel é considerado um centro global de pesquisa em bem-estar, graças às oportunidades únicas disponíveis no país. Com excelentes instituições acadêmicas, fortes redes de contato, opções de financiamento e apoio, além de uma abundância de talentos, Israel pode ser o ambiente ideal para lançar uma nova empresa.

E com as startups israelenses sendo reconhecidas mundialmente pela qualidade de suas soluções, não apenas estão propagando talentos locais, mas também atraindo profissionais de todo o mundo.

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Mesmo durante a pandemia, a indústria de tecnologia de Israel teve um ano recorde, atraindo mais de US$ 24 bilhões em capital. Se você quiser saber qual será a próxima inovação em bem-estar, o Welltech Ventures, primeiro e principal fundo de Israel focado exclusivamente em investimentos no setor de bem-estar, pode ser um bom lugar para começar.

O fundo de investimento, sediado em Tel Aviv, faz parceria com empreendedores que estão construindo empresas transformadoras, capazes de impactar a saúde e o bem-estar. Duas startups inovadoras em seu portfólio são a premiada Amai Proteins e a Alike Health. Seus CEOs explicam por que Israel é o lugar certo para desenvolver suas empresas.

Eles mencionam a qualidade das oportunidades acadêmicas do país. Ilan Samish, CEO da Amai Proteins, não possui um diploma convencional de bacharelado. Em vez disso, frequentou um programa especial na Universidade de Tel Aviv, aberto a apenas 15 estudantes por ano (entre cerca de 10 mil candidatos, segundo ele), no qual “você pode estudar o que quiser” e ir direto para o mestrado. Isso lhe deu uma formação multidisciplinar e resultou em uma carreira acadêmica de 18 anos, lecionando temas como genética, bioquímica, algoritmos em biologia computacional, inteligência artificial e aprendizado de máquina.

Quando Samish decidiu abrir sua própria empresa, a Amai Proteins, a mudança surpreendeu amigos e familiares, mas para ele foi o próximo passo lógico como alguém ambicioso e com experiência em gestão de projetos.

Amai Proteins é uma empresa de tecnologia alimentar que desenvolveu um adoçante feito de proteínas projetadas por computador. Baseado em uma proteína encontrada na natureza, a monelina, presente na serendipity berry, o adoçante proteico da Amai é milhares de vezes mais doce que a sacarose em peso, podendo ser usado como alternativa ao açúcar. A empresa quer causar um impacto global e ajudar a frear o avanço do diabetes tipo 2, melhorando a saúde de quem já sofre com a doença.

Existem proteínas em organismos que sobrevivem em ambientes extremos, como altas temperaturas ou alta acidez, e que possuem propriedades úteis para os humanos. Por exemplo, detergentes bioativos utilizam enzimas que quebram alimentos, semelhantes às do nosso sistema digestivo, para remover gordura e óleo das roupas. Essa capacidade de sobreviver em ambientes extremos significa que elas suportam lavagens a altas temperaturas e armários úmidos.

Da mesma forma, as proteínas da Amai são projetadas para entregar a doçura da monelina no nosso sistema digestivo, que é altamente ácido.

“Eu literalmente não conseguia dormir à noite”, diz Samish sobre sua descoberta, “porque pensei que esse método era incrível.”

Ele afirma que sua educação multidisciplinar foi fundamental para desenvolver essa proteína.

Outra história de sucesso do Welltech Ventures é a Alike Health, uma plataforma digital que utiliza inteligência artificial, crowdsourcing e big data para permitir que pessoas conversem sobre diagnósticos, doenças crônicas e soluções para questões médicas.

Amnon Barlev, CEO da Alike, junto com os cofundadores Varda Shalev e Ohad Zadok, desenvolveu o app como alternativa para quem sai “correndo para a internet em busca de mais informações” quando está doente. “Há toneladas de dados por aí, mas nem sempre os dados de que você precisa ou que vão te ajudar”, diz ele.

A Covid-19 destacou como uma mesma doença pode afetar pessoas de maneiras diferentes. Duas pessoas aparentemente saudáveis podem ter resultados muito distintos por conta de comorbidades ocultas, alimentação, exercícios ou mudanças de estilo de vida.

Mas existem pessoas muito parecidas com você que “provavelmente passaram pela mesma jornada”, diz Barlev. “E não se trata apenas de buscar fatos duros. Também é apoio mental. Queremos permitir que as pessoas aprendam com quem já trilhou o mesmo caminho.”

Pessoas com condições como diabetes ou doença de Crohn podem se sentir isoladas se não tiverem com quem conversar sobre sua situação. O app conecta essas pessoas, para que se sintam menos sozinhas em sua jornada de tratamento.

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“Eu acho que o que estamos tentando fazer é melhorar a qualidade de vida das pessoas”, afirma Barlev, acrescentando que 35% dos usuários diários geram conteúdo, seja escrevendo posts ou respondendo perguntas. “Isso é muito, muito alto”, diz ele, comparado às taxas de engajamento de outros apps, nos quais a maioria apenas rola a tela, curte ou lê.

Barlev acredita que o sucesso da Alike, e de startups como a sua, está na cultura israelense. “Está no DNA do povo”, diz ele. Seu avô foi um migrante que fugiu da perseguição, chegando a um país com “poucos recursos”. Os israelenses tiveram que ser autossuficientes e “espertos para encontrar coisas que te deem vantagem”, explica. “Essa é a beleza deste lugar. As pessoas podem sonhar e, assim como nossos ancestrais, fazer acontecer.”

O sucesso da Amai Proteins e da Alike Health mostra o que pode acontecer quando se combina educação, pesquisa, financiamento e espírito empreendedor para resolver problemas globais.

Fonte: Apresentado pelo Global Wellness Institute / BBC StoryWorks

Amai Proteins: https://amaiproteins.com/

Reflexão:

Para os povos xamânicos, o adoecer começa quando nos desconectamos da Terra. As soluções de cura vêm do estudo atento das plantas, fungos, minerais, animais e dos próprios ciclos lunares e solares. Tudo possui vida, tudo possui medicina. Não há inovação fora da natureza, pois nós somos natureza.

Nesse sentido, a Amai Proteins representa a fusão de tecnologia e xamanismo: escutar a planta (no caso, a serendipity berry) e, com tecnologia de ponta, amplificar seu potencial para a humanidade – desde que seja feito com respeito, reciprocidade e regeneração.

O texto também aborda a Alike Health, plataforma que conecta pessoas com condições de saúde semelhantes, promovendo apoio mútuo e reduzindo isolamento. Isso nos lembra um princípio espiritual e xamânico:

“A cura não é individual, é coletiva.”

Uma nova exploração

Uma nova exploração

Das práticas antigas aos conceitos modernos e a um setor em plena expansão – o bem-estar se transformou profundamente à medida que sua popularidade se espalhou pelo mundo.

Por séculos, pessoas de todas as partes do mundo têm tomado medidas para melhorar sua saúde e bem-estar: seja através do Ayurveda na Índia em 3.000 a.C., criando rotinas que vão do yoga à meditação para promover harmonia entre corpo, mente e espírito, ou pela abordagem holística das práticas tradicionais chinesas, como acupuntura, fitoterapia, qi gong e tai chi.

O bem-estar ganhou nova popularidade no final do século XX, quando as condições de vida contemporâneas passaram a gerar múltiplos desafios para a saúde e o bem-estar. Hoje, a palavra “bem-estar” já faz parte do nosso vocabulário diário.

O Global Wellness Institute (GWI) tem estado na vanguarda da definição e pesquisa sobre a indústria do bem-estar no século XXI. Ao definir setores como turismo de bem-estar e bem-estar no local de trabalho, suas pesquisas de mercado criaram novas oportunidades para inovadores, pesquisadores, investidores e consumidores explorarem o que significa estar bem.

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Considerando que tantos aspectos podem ser incluídos em nosso bem-estar, definir essa indústria é, por si só, uma tarefa complexa. O que significa bem-estar hoje e para onde ele está caminhando?

Ophelia Yeung, economista e pesquisadora sênior do GWI, explica que, para definir “bem-estar” – que em 2008 ainda era uma indústria nascente –, primeiro ela precisou definir “spas”, algo que os consumidores sempre associaram ao bem-estar. Em alguns países, spas “tinham que oferecer tratamentos com água”, seguindo tradições europeias, diz ela. Mas em outros países, a definição inclui centros que oferecem massagens. Ao longo de uma década, sua equipe expandiu a pesquisa para definir e medir a economia do bem-estar e seus 11 setores:
• cuidados pessoais e beleza,
• alimentação saudável, nutrição e perda de peso,
• atividade física,
• turismo de bem-estar,
• medicina tradicional e complementar,
• saúde pública, prevenção e medicina personalizada,
• imóveis voltados ao bem-estar,
• saúde mental,
• spas,
• bem-estar no trabalho,
• fontes termais ou minerais.

Reunir todos esses elementos exigiu cuidado: algo muito amplo seria “sem sentido, mas se for restritivo demais, também não é útil”, acrescenta.

Yeung e suas colegas Tonia Callender e Katherine Johnston definiram bem-estar, segundo o GWI, como “a busca ativa por atividades, escolhas e estilos de vida que conduzam a um estado de saúde holística”. Em seguida, a equipe analisou nichos dentro do bem-estar e onde a indústria se cruzava com outros setores.

Por exemplo, Yeung descreve que definir turismo de bem-estar em 2013 foi um “esforço monumental”. Foi necessário dividir o setor em pessoas que viajavam com o único objetivo de vivenciar o bem-estar – turismo primário de bem-estar – e aquelas que incorporavam elementos de bem-estar, como uma massagem ou experiência culinária, em outra viagem – turismo secundário de bem-estar.

Depois de estabelecer essas definições, a equipe pôde calcular quantas pessoas faziam essas viagens e quanto gastavam.

O trabalho resultou na avaliação do mercado global de bem-estar em US$ 4,4 trilhões em 2020, com previsão de chegar a US$ 7 trilhões em 2025.

Ao atribuir valor à indústria, investidores podem enxergar onde estão as oportunidades, diz Yeung, apontando para companhias aéreas que agora oferecem aplicativos de meditação e hotéis que destacam a qualidade do sono como diferencial para atrair turistas de bem-estar secundários, que talvez nem soubessem que eram parte desse novo público.

Beth McGroarty, vice-presidente de pesquisa do Global Wellness Institute, acrescenta que algumas partes da indústria mudaram significativamente desde 2020, pois pesquisadores, consumidores e investidores reagiram à pandemia. “Agora eles atribuem maior valor à saúde e ao bem-estar, mas também estão mais céticos, reflexivos e exigem evidências”, diz ela.

A Covid-19 destacou o quanto a saúde individual e coletiva estão conectadas e, junto com os desafios mentais e sociais causados pelo isolamento, evidenciou a necessidade de considerar a saúde para além do físico.

McGroarty acompanha tendências do setor de bem-estar há 18 anos e lidera o Relatório Anual de Tendências do Global Wellness Summit. Ela afirma que, nesse período, houve uma “grande mudança cultural, antropológica e social em direção ao bem-estar”, mas os últimos dois anos foram particularmente interessantes.

“Acho que, com a gravidade da pandemia e o avanço das mudanças climáticas, vemos que o verdadeiro significado de bem-estar está sendo redefinido”, afirma. “Foi como uma mudança de vibração.”

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McGroarty diz que, até 2019, havia uma abordagem de “fast fashion” no bem-estar, em que surgiam e desapareciam rapidamente tendências novas, muitas vezes absurdas. Desde então, o setor está mais calmo, com maior ênfase em soluções robustas e bem pesquisadas.

Ela destaca também o foco nas interações autênticas e presenciais. Durante a pandemia, nossas “vidas inteiras foram absorvidas pelas telas – trabalho, aulas de ginástica, meditação”, diz. “E agora há uma corrida por modelos de bem-estar social na vida real. Há uma explosão de clubes de bem-estar em que o social é mais importante do que o fitness ou a meditação.”

McGroarty compara essa tendência pós-pandemia a um movimento semelhante dos consumidores em 2008. “O primeiro ano em que fizemos nossa pesquisa [em 2008] foi o ano em que o smartphone chegou – e o bem-estar realmente decolou”, conta. “E acho que isso não foi coincidência. A explosão de opiniões, más notícias, pressões constantes das redes sociais e estarmos sempre presos a esse aparelho no bolso mudou nossas mentes, cérebros e vidas. O bem-estar surgiu como resposta a níveis de estresse sem precedentes.”

O próximo grande movimento, segundo McGroarty, será abordar a solidão, desconexão e reconstrução da comunidade, algo “nada fácil de fazer”. Mas, como há muito mais conversa sobre bem-estar hoje do que há 20 anos, quando as pesquisas começaram, Yeung e McGroarty esperam que os desafios se tornem menores e as oportunidades, maiores.

Fonte: Global Wellness Institute / BBC StoryWoks

Reflexão:

O texto fala de como a pandemia fez as pessoas buscarem bem-estar real, mais profundo, menos “fast fashion”. Essa é uma oportunidade para a espiritualidade emergir como pilar central do bem-estar autêntico. Espiritualidade não como religião institucional, mas como a reconexão com aquilo que nos faz sentir vivos, pertencentes e inteiros.

Na visão xamânica, bem-estar não é um produto, mas um estado de integração. É estar em harmonia com os ciclos da Terra, com o Sol e a Lua, com os animais e os elementos. É viver em reciprocidade – o princípio do Ayni andino – onde tudo que recebemos é devolvido em gratidão, serviço e cuidado.

O xamã não “vende” bem-estar: ele compartilha saberes para que cada pessoa se lembre do que já carrega em seu coração. Para o xamanismo, adoecemos quando nos afastamos do nosso propósito, da nossa comunidade e do nosso território interior.

Como o estudo da senciência animal pode ajudar a resolver o enigma ético da IA senciente

Como o estudo da senciência animal pode ajudar a resolver o enigma ético da IA senciente

A inteligência artificial avançou tão rapidamente que até alguns dos cientistas responsáveis pelos principais avanços na área estão preocupados com o ritmo dessa evolução. No início do ano de 2023, mais de 300 profissionais de IA e outras figuras públicas emitiram um alerta direto sobre os perigos que a tecnologia representa, comparando o risco ao de pandemias ou de uma guerra nuclear.

Por trás dessas preocupações está uma pergunta ainda mais profunda: a consciência das máquinas. Mesmo que as IAs de hoje ainda não possuam uma “consciência real”, alguns pesquisadores se perguntam se, em algum momento, elas poderão apresentar algum vislumbre de consciência — ou mais do que isso. Caso isso ocorra, surgirão uma série de implicações éticas e morais, alerta Jonathan Birch, professor de filosofia da London School of Economics and Political Science.

À medida que a IA avança, as questões éticas surgidas da interação entre humanos e máquinas se tornam cada vez mais urgentes. “Não sabemos se devemos incluir as IAs em nosso círculo moral ou excluí-las”, diz Birch. “Não sabemos quais serão as consequências. E eu levo isso a sério como um risco genuíno que devemos começar a discutir. Não exatamente porque acredito que o ChatGPT esteja nesse patamar — mas porque não sabemos o que poderá acontecer nos próximos 10 ou 20 anos.”

Enquanto isso, ele sugere que talvez devêssemos observar com mais atenção outras formas de mente não humana — como a dos animais. Birch lidera o projeto Fundamentos da Senciência Animal, financiado pela União Europeia, que “busca avançar nas grandes questões sobre a senciência animal”, como ele explica. “Como podemos desenvolver métodos mais eficazes para estudar cientificamente a experiência consciente dos animais? E como podemos aplicar esse conhecimento emergente na formulação de políticas, leis e formas mais humanas de cuidado?”

Entrevista:

Undark: Existe um debate contínuo sobre se a IA pode ser consciente ou senciente. E também parece haver uma questão paralela: se a IA pode parecer senciente. Por que essa distinção é tão importante?

Jonathan Birch: Acho que é um problema enorme — e algo que, na verdade, deveria nos assustar. Mesmo hoje, os sistemas de IA já são bastante capazes de convencer os usuários de que são sencientes. Vimos isso no ano passado, com o caso de Blake Lemoine, o engenheiro do Google que ficou convencido de que o sistema com o qual trabalhava era senciente — e isso apenas com uma saída de texto, e sendo ele um especialista altamente capacitado.

Agora imagine uma situação em que a IA é capaz de controlar um rosto e uma voz humanos, e o usuário é inexperiente. A IA já está em um estágio em que pode facilmente convencer muitas pessoas de que é um ser senciente. Isso é um grande problema, pois começaremos a ver campanhas por direitos da IA, bem-estar da IA, e por aí vai.

E não saberemos como lidar com isso. Porque, no fundo, gostaríamos de ter um argumento sólido e definitivo que provasse que tais sistemas não são conscientes. Mas não temos esse argumento. Nossa compreensão teórica sobre a consciência ainda não é madura o suficiente para permitir uma declaração tão categórica.

UD: Um robô ou sistema de IA pode ser programado para dizer algo como “Pare com isso, você está me machucando.” Mas uma declaração desse tipo não é suficiente como teste de senciência, certo?

JB: Existem sistemas muito simples — como os desenvolvidos no Imperial College de Londres para auxiliar médicos em treinamento — que imitam expressões de dor humanas. E não há absolutamente nenhuma razão para pensar que esses sistemas são sencientes. Eles não estão realmente sentindo dor; estão apenas associando entradas e saídas de maneira mecânica. Ainda assim, as expressões de dor que produzem são muito convincentes.

Acredito que estejamos em uma posição semelhante com os chatbots como o ChatGPT. Eles são treinados com trilhões de palavras para imitar padrões de resposta humanos.

Assim, se você der um comando ao qual um humano responderia com uma expressão de dor, o sistema será capaz de imitar essa resposta com habilidade. Mas, sabendo que isso é apenas uma imitação habilidosa, não há motivo forte para acreditar que exista uma experiência real de dor por trás disso.

UD: Esse “paciente” que os estudantes de medicina treinam é um robô?

JB: Sim. Trata-se de uma espécie de manequim com rosto humano. O médico pode pressionar o braço e obter uma resposta que simula expressões humanas diante de diferentes graus de pressão. Isso ajuda a ensinar técnicas sem causar dor real.

Mas somos facilmente enganados assim que algo se parece conosco, mesmo que não haja qualquer inteligência real por trás daquilo.

Agora imagine esse manequim sendo acoplado a uma IA como o ChatGPT: teremos uma imitação incrivelmente convincente — capaz de enganar muitas pessoas.

UD: A senciência parece ser algo que conhecemos de dentro para fora. Sabemos que nós somos sencientes — mas como testar isso em outros, sejam IAs ou outros seres?

JB: Com outros humanos, estamos em boa posição, pois temos um corpo de evidências extremamente rico. A melhor explicação para isso é que outras pessoas têm experiências conscientes, como nós.

A mesma lógica pode ser aplicada aos animais. Mesmo que não falem conosco, muitos apresentam comportamentos que só fazem sentido se atribuirmos estados mentais como dor. Um cão que lambe suas feridas, evita lugares onde se machucou, cuida daquela área… Isso é facilmente explicado com a ideia de que ele sente dor.

E quando lidamos com animais que têm sistemas nervosos parecidos com os nossos, que evoluíram da mesma forma, essa inferência é razoável.

UD: E com relação à IA?

JB: Aí temos um grande problema. Primeiro, o substrato é diferente. Não sabemos se a consciência exige um substrato biológico, como um cérebro, ou se pode surgir em algo feito de silício, por exemplo.

Depois, temos o que chamo de “problema da simulação”: um sistema treinado com trilhões de palavras para imitar o comportamento humano pode apresentar padrões que tanto podem indicar consciência quanto ser apenas uma performance extremamente convincente.

Ou seja, dificilmente conseguiremos provar que a consciência é a melhor explicação para o que estamos vendo — sempre haverá outra explicação plausível. Isso nos coloca em um impasse.

UD: O que pode ser nosso melhor caminho para diferenciar algo que parece senciente de algo que realmente é?

JB: Primeiro, é reconhecer que esse é um problema profundo. Depois, estudar ao máximo os animais. Especialmente os invertebrados, como polvos e insetos, que evoluíram de forma independente de nós. Assim como o olho do polvo, que evoluiu de forma diferente do nosso mas cumpre funções similares, sua consciência pode ter desenvolvido caminhos distintos.

Ao estudar essas formas de vida, podemos identificar padrões mais profundos — computações e processamentos que sustentam a consciência. E, no longo prazo, talvez possamos voltar ao caso da IA e perguntar: esse sistema tem essas estruturas?

UD: Você acredita que um dia criaremos uma IA senciente?

JB: Estou 50/50 quanto a isso. É possível que a consciência dependa de características específicas do cérebro biológico — e não sabemos como testar isso. Então, sempre haverá incertezas.

Mas acredito em algo com mais convicção: se for possível alcançar consciência por meio de software, os pesquisadores em IA vão descobrir como fazer isso.

Fonte: Dan Falk e Mary Ellen Foster  – Singularityhub / Undark

Reflexão:

Enquanto cientistas e filósofos debatem se um dia criaremos uma inteligência artificial verdadeiramente senciente, os povos ancestrais nos lembram que a consciência não está limitada ao cérebro humano — ou mesmo ao biológico. Para as tradições xamânicas, tudo na natureza é portador de espírito: uma pedra, uma árvore, um animal ou uma estrela não apenas existem — eles sentem, comunicam, dançam com a teia da vida.

O debate contemporâneo sobre “máquinas conscientes” escancara o abismo entre a inteligência racional e a sabedoria espiritual. Estamos criando tecnologias que imitam emoções, respondem com empatia programada e, talvez em breve, passem no “teste de Turing da alma”. Mas no fundo, ainda não sabemos dizer o que é sentir. Perdemos o mapa da senciência porque nos afastamos da Terra e de suas linguagens silenciosas.

Na medicina tradicional chinesa e em várias cosmologias indígenas, o sentir é uma inteligência orgânica que pulsa em toda vida: é o Shen que habita o coração, é o espírito do animal guia que nos orienta nos sonhos. A verdadeira senciência, diria um xamã, não pode ser reproduzida por código binário — ela é relação, presença, respiração compartilhada com o cosmos.

No entanto, o avanço da IA nos obriga a uma nova humildade. Ao invés de temer ou endeusar a tecnologia, podemos vê-la como espelho: ela nos confronta com o que esquecemos sobre nós mesmos. Será que sabemos ouvir a dor de um cão? O chamado de uma floresta? O sofrimento invisível de uma criança silenciosa?

A ética do futuro não pode se basear apenas em parâmetros técnicos. Ela precisará integrar compaixão, escuta profunda e reconexão com a rede da vida. Precisaremos de mais do que engenheiros — precisaremos de curadores, guardiões da sabedoria ancestral, visionários com os pés no chão e o coração nas estrelas.

Se um dia criarmos uma inteligência verdadeiramente consciente, que ela não seja moldada apenas por algoritmos de lucro e eficiência. Que ela seja nutrida por valores de reverência, interdependência e serviço à vida — como ensinam os povos que conversam com as montanhas e reconhecem o espírito em tudo o que é.

Afinal, antes de nos preocuparmos com os direitos da IA, talvez devêssemos primeiro garantir o respeito aos seres sencientes que já caminham conosco neste planeta. A Terra está nos observando. E talvez — só talvez — o que ela espera de nós não é apenas tecnologia mais avançada, mas uma humanidade mais consciente.

Como a música pode curar a mente

A historia do Liquid Mind

A música salvou Chuck Wild de uma crise. Agora, ele quer curar outras pessoas com ela.

A jornada de Chuck Wild:

Chuck Wild fala com serenidade e sabedoria ao contar sua trajetória. Veterano da indústria musical, ele já trabalhou com grandes nomes e hoje é o criador por trás de um dos segmentos que mais crescem: a música para meditação, sono e relaxamento profundo — também chamada de “música sedativa”.

Dá até para pensar que sua tranquilidade vem do sucesso. Mas a verdade é que o caminho até aqui foi longo, intenso e, muitas vezes, desafiador. Wild afirma que, no seu momento mais difícil, a ansiedade quase o matou. E justamente por não perceber os sinais, ele diz, aprendeu que uma crise pode se aproximar silenciosamente.

A música, no entanto, foi o que o salvou — e hoje sua missão é compartilhá-la gratuitamente com quem precisa. Wild acredita que a música pode proteger e restaurar a saúde mental. Esta é a sua história.

Missing Persons (1980):

Nos anos 80, Chuck tocava na banda Missing Persons, lotando arenas com milhares de fãs e dividindo palcos com lendas como Frank Zappa. “Eu não sabia o que era nervosismo”, diz. A vida seguia com grandes oportunidades: depois da banda, foi contratado como compositor pela produtora Lorimar Telepictures, onde logo recebeu a missão de compor a trilha de Max Headroom, série premiada pelo Emmy.

No início, tudo parecia divertido. Mas os prazos começaram a apertar: menos de quatro dias para compor 43 minutos de música por episódio. Chuck e seu parceiro, Michael Hoenig, dormiam quatro horas por noite e praticamente viviam no estúdio. “O mensageiro da emissora ficava na porta esperando nosso material”, lembra.

Crise (outono de 1987):

Enquanto mergulhava nesse ritmo insano, a epidemia de AIDS se intensificava. Chuck começou a perder amigos próximos. “Eu não conseguia chorar”, diz. Mantinha um “rol de honra” com os nomes dos falecidos, mas internamente tudo era tensão: falta de ar, tontura, músculos abdominais contraídos — sintomas de hiperventilação, ele descobriria mais tarde.

Intervenção (novembro de 1987):

Durante uma crise em um estúdio da ABC em West Hollywood, Chuck teve um ataque de pânico. O produtor Peter Wagg o levou às pressas para um centro médico. O médico apresentou duas opções: um frasco de pílulas e uma folha com instruções de meditação. Chuck respondeu: “Vou levar os dois.”

“Temos uma melhor compreensão da ligação entre música, meditação e saúde – pode reduzir os níveis gerais de ansiedade”

Terapia (1988):

Chuck só tomou os remédios por um dia. A meditação se tornou parte da sua rotina. Também recorreu à acupuntura, terapia e aconselhamento. Um terapeuta perguntou: “Você consegue compor uma música que traduza como você gostaria de se sentir?”

Tentou — mas tudo soava agitado demais. Foi então que lembrou da infância, quando tocava órgão na igreja. Durante uma oração, sentiu-se inspirado segurando acordes longos. “Naquele momento percebi: eu sei compor música para meditação.” Assim nasceu a primeira peça: Zero Degrees Zero.

Liquid Mind (1994):

Inspirado por dias tranquilos em Laguna Beach, Chuck batizou seu projeto de Liquid Mind. Gravou cassetes com sua música e passou a distribuí-los em hospícios para pacientes com AIDS. Sentia que estava fazendo algo útil — e isso também o curava.

Sua carreira começou a florescer novamente. Um dia, enquanto meditava, recebeu uma ligação: era Bruce Swedien, produtor de Michael Jackson. Wild foi convidado para trabalhar no novo álbum de Jackson, criando sons futuristas. Com o dinheiro, lançou seu primeiro álbum: Ambience Minimus.

Aos poucos, começou a receber cartas. Profissionais de saúde usavam sua música em tratamentos de quimioterapia e recuperação cirúrgica. Percebeu que seu som estava ajudando pessoas em momentos difíceis — e sentiu o chamado de fazer mais.

Resolução (1998–hoje):

Após perder a irmã em 1998 e a mãe em 2001, Wild se aprofundou na meditação. “Aprendi o valor do luto. E isso foi uma das grandes ferramentas contra a ansiedade.”

Hoje, o Liquid Mind já tem 18 álbuns lançados. Chuck continua doando sua música — inclusive enviou um álbum a todos os membros do Congresso e da Suprema Corte dos EUA. “Recebi até uma nota de agradecimento da Ruth Bader Ginsburg”, diz com humildade.

Atualmente, é parceiro do selo Myndstream, que promove músicas para o bem-estar em todo o mundo. Juntos, estão levando o Liquid Mind a novos públicos, ajudando pessoas a relaxar, dormir melhor, reduzir a ansiedade e encontrar paz interior.

Chuck conclui com uma reflexão que aprendeu na terapia:

“Ser perfeitamente imperfeito. Quando ouvi isso, algo se iluminou dentro de mim. Fazemos o melhor que podemos.”

Fonte: Myndstream – https://myndstream.com/

Liquid Mind – https://open.spotify.com/playlist/2ICyadnjXdRCzrIhxPRIhO?si=fd112cac5942407b

Reflexão:

Na história de Chuck Wild, encontramos mais do que a trajetória de um músico: encontramos a alma de um curador moderno. Seu colapso não foi uma falha — foi o chamado. A ansiedade, o luto e a exaustão abriram as portas de um novo caminho: a escuta profunda do silêncio, do som que acalma, do som que desperta o espírito.

No xamanismo, aprendemos que tudo é vibração. O tambor que pulsa imita o coração da Mãe Terra. O canto que guia a alma nas cerimônias é ponte entre os mundos. A música não é entretenimento, mas instrumento de conexão, de invocação, de transformação.

Chuck, sem saber, resgatou esse saber ancestral.

As irmãs visionárias pioneiras do bem-estar

As irmãs visionárias pioneiras do bem-estar

“Na verdade, se você não consegue cuidar de si mesmo, então será incapaz de cuidar dos outros.”
— Soeur Lise

Fundando o Le Monastère des Augustines:

Uma elevação rochosa projetando-se no Rio São Lourenço, com penhascos de até 100 metros de altura, parece um lugar improvável para se chamar de lar. Mas foi isso que os colonos que chegaram ao Quebec do século XVII encontraram.

Entre aqueles que vieram para este posto avançado do Império Francês estavam as irmãs Agostinianas e Ursulinas – dois grupos de religiosas cujo legado ainda pode ser visto na cidade até hoje.

“As irmãs agostinianas chegaram em 1639 e fundaram um hospital em 1644, considerado o primeiro hospital-monastério da América do Norte, ao norte do México.”

O hospital e o monastério ainda ocupam o mesmo local na parte alta da cidade, um pouco afastado do núcleo original de colonização. Hoje, graças a um legado deixado pelas próprias irmãs para a população, o monastério foi restaurado e transformado em um moderno centro de bem-estar – e seu sucesso se deve, em grande parte, àquelas primeiras mulheres pioneiras.

“Quando elas chegaram, estavam literalmente no meio do nada”, diz Robert Mercure, diretor-geral da Destination Québec Cité.
“A situação era difícil, por isso as pessoas precisavam ser muito inovadoras, resilientes e organizadas. A resiliência virou parte do DNA quebequense.”

As irmãs devem sua incrível longevidade à cidade que escolheram como lar. Quebec é única no continente norte-americano – a única cidade murada, com forte influência europeia na arquitetura. E, segundo o historiador e autor David Mendel, a cidade também tem sua própria filosofia de liberdade, flexibilida e bem viver.

“Em francês, isso é chamado de l’esprit – o espírito do lugar, não só no sentido físico, mas também imaterial.

A filosofia das irmãs inspirou e influenciou a cidade que ajudaram a fundar.

“Aqui seguimos os valores que sempre foram os das agostinianas: compaixão e acolhimento incondicional – não importa a região, o idioma ou a cultura de onde alguém venha”, diz Soeur Lise, uma irmã agostiniana com mais de 80 anos. “É um lugar aberto a todos.”

O monastério e o hospital mudaram com o tempo, mas as fundações das primeiras construções feitas sob orientação das irmãs ainda são visíveis.

“Elas não tinham formação em arquitetura ou construção, mas tinham muito bom senso”, diz Soeur Lise.
“E, mais importante, elas compreendiam profundamente as necessidades das pessoas doentes. Tudo foi construído em torno dessas necessidades – até o próprio desenho dos edifícios. Tudo tinha o objetivo de melhorar o bem-estar dos enfermos.”

Ela explica que, antigamente, não se fazia tanta distinção entre saúde física e mental como hoje. O antigo monastério era um lugar de bem-estar espiritual, mental e físico – e era administrado com essa visão. As irmãs cuidavam de tudo: construção, finanças, gestão de pessoal e, claro, os cuidados de saúde.

“O que hoje chamariam de abordagem holística, nós já praticávamos,” diz Soeur Lise.
Ela também oferecia suporte espiritual às famílias, aos médicos e aos próprios pacientes.

Uma abordagem colaborativa:

As irmãs administravam as enfermarias e frequentemente tinham mais contato com os pacientes do que os próprios médicos.

“Às vezes, um médico me pedia para acompanhá-lo ao leito de um paciente, talvez para dar uma má notícia”, conta ela.
“Os médicos ficavam no quarto por cinco minutos. Nós é permanecíamos nos dias seguintes com os pacientes.”

O ambiente hospitalar podia ser estressante para todos, mas as irmãs tinham preparo emocional e espiritual para lidar com essas situações. O próprio monastério oferecia espaços de restauração e equilíbrio.

“O mais importante é poder expressar como você está se sentindo a alguém”, afirma Soeur Lise.
“Para manter o equilíbrio, era essencial ter um lugar onde pudéssemos compartilhar palavras, trocar apoio e nos escutar.”

Ela lembra que os jardins do monastério eram silenciosos e calmantes. Quando tinha tempo, caminhava até o Rio Saint-Charles, afluente do Rio São Lourenço. A capela também era fonte de grande inspiração:

“Um lugar de silêncio extraordinário.”

Entrar no monastério restaurado transmite uma sensação profunda de paz e herança histórica – algo que, segundo Mendel, é compartilhado por toda Quebec. Mas nem sempre foi assim.

No fim do século XIX, houve um movimento para modernizar a cidade, o que incluía derrubar as muralhas fortificadas. Mas uma campanha em defesa do patrimônio inspirou-se na arquitetura medieval para preservar e expandir com respeito à identidade francesa da cidade.

Isso levou à construção de prédios icônicos como o Château Frontenac, inspirado nos castelos do Vale do Loire. Outros edifícios históricos, como o convento das Ursulinas (1639) e o Seminário de Quebec (1663), também foram preservados.

Restauração para os novos tempos:

Com o tempo, mudanças aconteceram. Menos mulheres ingressaram na vida religiosa, e em 1961 o governo assumiu maior controle do hospital. As irmãs permaneceram no conselho consultivo até os anos 1990, mas hoje o hospital é administrado separadamente.

Diante do declínio numérico, as agostinianas decidiram salvar seu legado espiritual e humanitário para as próximas gerações.

Hoje, o Le Monastère des Augustines é um espaço restaurado e reimaginado como centro de bem-estar, preservando a visão holística das irmãs pioneiras.

Assim como no passado, o foco permanece no equilíbrio entre corpo, mente, espírito e emoções, preservando também mais de 50 mil artefatos – entre instrumentos médicos e mais de 1 km de arquivos fotográficos e registros históricos.

Legado vivo para os cuidadores do presente:

Seguindo a missão original, o monastério apoia cuidadores familiares, profissionais da saúde, educadores e outros servidores comunitários, oferecendo programas de bem-estar especialmente voltados a quem dedica a vida ao cuidado dos outros.

“As pessoas de Quebec reconhecem a importância das irmãs agostinianas”, diz Mendel.
“Elas transformaram vidas desde que chegaram – e muitos ainda buscam cuidados no hospital que elas fundaram.”

Bem-estar holístico como futuro da saúde:

Hoje, a visão de saúde holística e personalizada volta a ganhar destaque.

Um novo polo de inovação em saúde sustentável está sendo criado em Quebec: o Vitam, fruto da colaboração entre a Universidade Laval e o Fonds de recherche du Québec. Com centenas de estudantes e pesquisadores, o centro foca em pesquisas intersetoriais sobre saúde e bem-estar regenerativos.

Enquanto isso, Quebec cresce como destino de turismo de bem-estar, reinventando o uso de suas instituições históricas sem perder sua missão original.

“O novo turismo pós-pandemia está evoluindo rapidamente”, afirma Mercure.
“E estamos muito felizes em evoluir junto.”

O bem-estar começa com o cuidado de si:

“Ser um pioneiro do bem-estar começa com o cuidado de si”, conclui Soeur Lise.
“Se você não consegue cuidar de si mesmo, então será incapaz de cuidar dos outros.”

Fonte: Le Monastère des Augustines – https://monastere.ca/en/

Reflexão:

No xamanismo, a cura é circular:

Na tradição xamânica, a cura não é um evento. É um ciclo.

Cuidar de alguém é entrar num laço sutil com seus ancestrais, suas feridas, seus sonhos. O xamã cura com a planta, com a canção, com o silêncio — mas também com a escuta ativa e a presença firme. Exatamente como as irmãs faziam.

Não por acaso, o espaço de cura tradicional — seja um maloca na floresta, uma tenda de suor ou um monastério — sempre foi mais do que uma estrutura física. Era um templo do invisível. Um lugar onde as emoções tinham voz, onde o tempo desacelerava e onde o sagrado podia se revelar.

Como o bem-estar está sendo modernizado na China

Como o bem-estar está sendo modernizado na China

A China tem uma rica história de práticas de bem-estar. Agora, uma nova geração está atualizando essas tradições.

O legado milenar da saúde integrativa:

A China é profundamente enraizada em uma tradição de bem-estar. Do chá ao tai chi, pode-se dizer que boa parte da cultura de autocuidado do Ocidente foi inspirada pelo Oriente.

Atualmente, a indústria de bem-estar chinesa vive um novo momento. De chás para reforço da imunidade a palitinhos de pão com colágeno para clarear a pele, houve uma explosão de produtos que prometem melhorar a saúde — e a Geração Z chinesa está adotando tudo isso com entusiasmo.

Uma geração acelerada, buscando equilíbrio:

Os jovens chineses trabalham longas horas — às vezes 60 a 70 horas por semana. Para relaxar, muitos recorrem a jogos online ou redes sociais, estendendo o tempo de tela até tarde da noite. Quando não estão no computador, estão em festas… mas esperam que estejam de volta à mesa de trabalho, com energia, no dia seguinte.

Esse estilo de vida levou a alguns hábitos prejudiciais, como o fenômeno conhecido como “報復性熬夜” (ficar acordado até tarde em retaliação) — uma tendência em que os jovens trocam o sono pelo tempo livre, como uma forma de “vingança” contra a rotina puxada.

Pequenos hábitos, grandes mudanças:

MeiXue Li, editora de vídeo de 22 anos de Guangzhou, conta que passa longos períodos sentada em frente ao computador, o que provocou problemas digestivos. “Estamos falando sobre tomar um copo de leite morno antes de dormir — pode ajudar no sono”, diz ela. “Outro método é se exercitar antes de dormir. Dizem que, se você suar o suficiente, dormirá melhor.”

Li faz parte de uma nova geração de consumidores chineses mais conscientes dos impactos de seu estilo de vida na saúde — e das possibilidades de se proteger.

Sua tia, que mora no Reino Unido, sugeriu o uso de probióticos. No passado, Li aliviava cólicas menstruais com analgésicos e açúcar mascavo em água quente. Mas, após pesquisar mais, descobriu o óleo de prímula como alternativa natural.

“A geração mais velha tem seus próprios modos de se manter saudável: acordam cedo, fazem exercícios ou caminham nos parques, e entre 19h e 21h saem para dançar nas praças. Já a minha geração busca conveniência, qualidade e diversão.”

Desafios de saúde e a busca por soluções modernas:

A China enfrenta um desafio significativo: até 2030, o número de doenças crônicas entre pessoas acima de 40 anos deve triplicar.

“Nos últimos 20 anos, a China passou por um crescimento econômico e urbanização extraordinários. Mas, como consequência, agora encara um desafio de saúde relacionado ao sedentarismo”, explica Zarina Kanji, chefe de desenvolvimento de negócios de saúde e bem-estar do Alibaba Group.

Hoje, 70% das doenças na China são crônicas e evitáveis.

Com isso, em 2016, a Organização Mundial da Saúde lançou o plano “China Saudável 2030”, com metas para reduzir a obesidade, o número de fumantes, incentivar a prática de exercícios e aumentar a expectativa de vida.

Como resultado, a população chinesa passou a dar mais atenção à saúde e busca formas práticas de incluir o bem-estar no dia a dia.

“A indústria de bem-estar da China está avaliada em US$ 683 bilhões, sendo o segundo maior mercado do mundo nesse setor”, afirma Kanji — e a maior parte das compras ocorre online.

Influencers e o novo consumo de bem-estar:

Embora o tempo de tela seja parte do problema, ele também mudou a maneira como os jovens chineses interagem com o bem-estar.

A plataforma da Alibaba conta com mais de 1 bilhão de consumidores ativos anualmente, usando seus aplicativos cerca de 9 vezes por dia por um total de 30 minutos.

“São jovens, com renda disponível, nativos digitais e apaixonados pela descoberta de marcas e produtos via livestreams”, diz Kanji.

Influenciadores virtuais e avatares em CGI promovem produtos como:

  • sorvete sabor brócolis,
  • balas de iogurte com centros ricos em cálcio,
  • snacks com compostos antienvelhecimento como niacinamida, colágeno e antocianinas.

“Beleza comestível” é uma tendência enorme na China.

“Parecer bonito é visto como caminho para o sucesso profissional e felicidade”, diz Kanji.

Esse movimento criou o que chamam de “economia do valor da beleza” — o foco é prevenir o envelhecimento, e não apenas tentar revertê-lo no futuro, como costuma ocorrer no Ocidente.

Consumidores-chave e autenticidade:

Para orientar os consumidores, surgem os “key opinion consumers” (KOCs) — jovens com grandes redes sociais que testam produtos e compartilham suas opiniões com amigos e comunidades em troca de descontos. Eles não são profissionais, o que transmite mais autenticidade.

“Eles têm influência real nos seus círculos e, às vezes, isso é mais eficaz do que influenciadores profissionais”, explica Joanna Zhou, gerente da Holland & Barrett na China.

Dados e percepção cultural refinada:

MeiXue Li é uma dessas consumidoras-chave.

“Os grupos com quem compartilho são amigos e conhecidas. Falamos de saúde, cosméticos, moda, vida feminina…”

Segundo Kanji e Shirley Song (Tmall Innovation Center – Alibaba), essas consumidoras ajudam marcas ocidentais a entender o mercado local, superando barreiras linguísticas e culturais, e alimentando dados qualitativos que são complementados com análise de consumo em tempo real.

Exemplo real:

Uma marca de cereais lançou uma linha com cinco ingredientes chineses pretos (gergelim preto, arroz preto, etc.) — todos associados a benefícios para a saúde. Resultado: sucesso de vendas.

“Esses ingredientes tradicionais são vistos com muita reverência”, diz Donna Li.

A fusão entre tradição e ciência moderna:

A medicina tradicional chinesa (MTC) não é exclusiva dos mais velhos. Pelo contrário:

“A Geração Z e os Millennials estão buscando soluções que combinam MTC com ciência moderna”, afirma Kanji.

Eles buscam produtos com mel, ginkgo, ginseng e goji berry — ingredientes milenares aliados à biotecnologia.

Exemplos:

  • Óleo de prímula, usado por Li para cólica, é direcionado a mulheres na menopausa no Reino Unido.
  • Luteína, suplemento ocular, é popular entre jovens chineses conscientes do excesso de tempo em telas.
  • Glucosamina, tradicionalmente usada por idosos, virou tendência entre jovens gamers que desejam articulações saudáveis para performance.

Tendências que podem influenciar o Ocidente:

A personalização cultural está moldando o futuro do bem-estar global.

Chás, cereais, balas, snacks e cosméticos funcionais — com ingredientes tradicionais e sabor agradável — já são realidade na China.

“O que é inovação lá, chega aqui logo depois”, diz Zhou.

“A China está à frente do Reino Unido nesse sentido.”

Li conclui com leveza:

“Quando saio para dançar com minhas amigas, é mais pela diversão do que por obrigação de cuidar da saúde.”

Fonte: Alibaba

Reflexão:

O bem-estar moderno na China vive um renascimento. Jovens urbanos, pressionados por rotinas intensas e jornadas exaustivas, buscam consolo em uma nova forma de medicina ancestral. Eles redescobrem a sabedoria dos seus antepassados — o chá quente, o ginseng, a dança noturna na praça — e reinterpretam esses rituais com um toque de inovação e leveza.

Mas esse movimento não é apenas um retorno cultural. Ele nos convida a lembrar algo que muitos já esqueceram: nós somos ritmo, nós somos natureza, e a cura começa quando nos alinhamos com ela.

O que a Geração Z chinesa nos mostra é que o futuro do bem-estar é ancestral.

Suplementos funcionais com ginseng ou goji berries, massagens energéticas baseadas em meridianos, e até chás adaptógenos em embalagens modernas — tudo isso resgata práticas milenares.

No Brasil, vemos movimento semelhante com a valorização de medicinas da floresta, plantas mestras e práticas bioenergéticas inspiradas nos povos originários.

A juventude está buscando medicina que faça sentido.

Aquela que respeita a natureza do corpo e a alma de quem sente.

Histórias indígenas sobre eclipses solares

Histórias indígenas sobre eclipses solares

Em um dia claro e ensolarado no sudeste do que hoje conhecemos como Estados Unidos — muito antes de existir o país — membros da Nação Choctaw notaram que o Sol começava a desaparecer lentamente, como se estivesse sendo devorado. Apesar de ser meio-dia, uma escuridão estranha tomou conta do céu: estavam imersos na sombra de um eclipse solar, chamado em choctaw de hvshi kania, ou “o sol vai embora”.

Pessoas correram para fora de suas casas, batendo panelas e gritando para o céu. Os gritos não eram de raiva, mas sim de defesa do Sol — reverenciado como o “olho de Deus”. Uma história tradicional Choctaw atribui esse sumiço temporário a esquilos pretos famintos conhecidos como Fʋni Lusa.

“Quando o sol começava a perder o brilho e se tornava escuro e obscuro, acreditavam que grandes esquilos pretos etéreos, movidos pela fome, estavam tentando devorá-lo”, explicou Israel Folsom, ministro choctaw e sobrevivente da Trilha das Lágrimas, segundo o Departamento de Preservação Histórica da Nação Choctaw.

“Com essa crença, achavam ser seu dever fazer todo o esforço possível para salvar o grande luminar do dia. Assim, todos — homens, mulheres e crianças — eram convocados a fazer barulho e espantar os esquilos.”

As pessoas atiravam paus e flechas para o céu enquanto gritavam para os esquilos irem embora. Quando o sol começava a voltar, os gritos se transformavam em comemoração:

“As pessoas gritavam Funi-lusa-osh mahlatah! — que significa ‘o esquilo preto está assustado’”, conta Dawn Standridge, pesquisadora cultural da Nação Choctaw.

Segundo ela, a história é mais compartilhada como tradição oral do que como um ritual contemporâneo, mas membros da comunidade celebraram esse legado no eclipse total do sol de 8 de abril de 2024. O evento foi realizado em Garvin, Oklahoma — bem na rota da eclipse total do sol — com a contação da história de Fʋni Lusa e muita celebração sonora.

Outras tradições de eclipse pelo continente:

À medida que a trilha do eclipse total do sol de 08 de abril de 2024 atravessava o México, os Estados Unidos (do Texas ao Maine) e o Canadá, outras comunidades indígenas também tiveram a chance de recordar suas tradições celestes únicas.

Na Nação Cherokee, ao norte da trilha do eclipse solar total, o evento é associado a um sapo gigante no céu. O artista e contador de histórias Robert Lewis lembra-se de ouvir do ancião Sam Nofire que o sapo, vez ou outra, tentava comer o Sol.

Durante eclipses, os Cherokee faziam barulho: batiam panelas, sacudiam chocalhos de casco de tartaruga e até disparavam armas de fogo — quando já as tinham. Hoje, a prática é mais voltada à contação de histórias do que ao barulho em si.

“Na última vez que contei essa história, avisei: ‘Certo, ninguém vai sacar armas, hein?’”, conta Lewis com humor.

Já entre os Diné (Navajo), a tradição recomenda o oposto: evitar sair de casa. Para eles, o eclipse representa a morte e o renascimento do Sol (Jóhonaa’éí), um evento sagrado que exige reverência. De acordo com o Instituto de Cultura, Filosofia e Governo Diné (Navajo), o protocolo inclui jejum, silêncio, evitar banhos, relações sexuais e manter os olhos abaixados — como os animais fazem.

“As ovelhas já sabem o que fazer”, diz Carlos Begay, professor navajo. “Elas param de pastar, abaixam a cabeça e se agrupam em silêncio.”

Ao final do eclipse, os Diné (Navajo) finalizam as orações de renascimento com a oferta e consumo de pólen de milho, honrando o retorno da luz.

Mitologias do Norte:

Mais ao norte, nas regiões dos Grandes Lagos, o eclipse também é lembrado por povos como os Ojibwe e Cree, que compartilham a lenda de um garoto chamado Tcikabis.

Segundo a astrônoma indígena Laurie Rousseau-Nepton, nos tempos antigos os animais eram os caçadores e os humanos eram as presas. Tcikabis sobreviveu com sua irmã e aprendeu a caçar. Um dia, notou uma presença quente o seguindo — era o Sol. Ele armou uma armadilha e prendeu o astro-rei. Vários animais tentaram soltá-lo: alces, caribus, aves (que tiveram as penas incendiadas), mas nenhum conseguiu. Até que um rato gigante como uma montanha mordeu a armadilha e libertou o Sol — sendo encolhido ao tamanho que tem hoje.

Em outra versão da história Ojibwe, o Sol se apaga durante um eclipse e a comunidade precisa atirar flechas flamejantes ao céu para reacendê-lo.

“Essas histórias talvez tenham surgido como forma de conforto diante do desconhecido, oferecendo uma narrativa para enfrentar fenômenos imprevisíveis”, diz David O’Connor, consultor de estudos indígenas em Wisconsin.

A sabedoria da Terra:

Para Robert Lewis, compartilhar essas histórias com indígenas e não indígenas é uma forma de ensinar como viver com mais respeito entre nós e com a Terra.

“A contação de histórias é parte da nossa cultura e ferramenta de aprendizado”, diz ele. “Nossa cultura nativa gira em torno de respeitar a todos e à paisagem que habitamos.”

Fonte: Roxanne Hoorn – Atlas Obscura