Embora muitos de nós costumemos conceber a religião e a espiritualidade com base no que conhecemos sobre igreja, sinagogas, templos, mesquitas e ashrams, o panorama da religião e da espiritualidade representa, antropologicamente  falando, as narrativas acumuladas nas longas épocas de desenvolvimento de nossa espécie.

O fato de uma ou outra narrativa ser considerada, por muitos a única verdadeira é algo que se poderia esperar, e perfeitamente natural, uma vez que estas narrativas são subjetivas para as populações entre as quais têm sido transmitidas há milênios. Isto responde pelo sentimento de autosatisfação de estar de posse da verdade absoluta, como no caso dos pilotos suicidas que morreram no 11 de Setembro, quando mergulharam suas centenas de vítimas nos alvos predeterminados.

Essas narrativas estão atracadas a uma lente através da qual todos nós olhamos, em maior ou menor grau, e à qual passaremos a chamar de lente mágico-mística. Tendo sido parte de quem nós somos desde as épocas em que éramos caçadores-coletores, essa lente se origina em um mundo esquecido, mas ainda muito vivo em nosso subconsciente. A mentalidade dos povos primitivos que comungavam com os espíritos da natureza e com seus ancestrais ainda nos instiga e nos fascina, o que responde, em parte, pela atração que histórias como Harry Porter, Star Wars, Jornada nas Estrelas, O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia exercem sobre nós.

Hoje, este lente mantém contato com ama lente diferente, até mesmo invadindo-a ou afetando-a de algum modo, um lente que emergiu há cerca e seis séculos: a lente científica do racional, do testável e do verificável. Essa lente mais recente, graças à qual nós dispomos no mundo da ciência  e da tecnologia, nos serviu bem, em muitos casos nos proporcionando condições de melhorar nossa saúde e nosso bem-estar, além de um conforto maior.

Ao mesmo tempo, a lente científica por vezes sequestrou nossa atenção para afastá-la do mundo mais profundo do maravilhoso, inclusive de uma percepção – e de um sentindo – do mágico, em vez de integrar com habilidade os dois mundos, de modo que ambos pudessem no enriquecer, uma vez que cada um deles é fundamental para a nossa constituição e, portanto, para o nosso potencial.

Também é importante reconhecer que a espiritualidade e a religião, com frequência confundidas uma com a outra, não são a mesma realidade. A espiritualidade difere da religião em seu valor incondicional, que não é afetado pelas circunstâncias. Na espiritualidade, visto através da lente incondicional do coração, Deus é uno.

Embora seja historicamente a fonte da espiritualidade, a religião está mais focalizada em saber de quem é a visão correta da realidade. Na religião, Deus não é uno. Essa é a antítese de uma receita que se poderia prescrever para um mundo que é, ao mesmo tempo, bom e preocupado com os interesses e o bem-estar de cada criatura.

No entanto, com a virada do milênio, uma visão se interespiritualidade passou a emergir do âmago das religiões do mundo. Essa visão, que resultou da exploração interior dos contemplativos, dos meditadores e dos místicos, juntamente com a atividade dos que procuram promover e estimular o avanço de seus companheiros humanos, recorreu, em seu processo de consolidação , a todo um conjunto de atributos comuns em que quase todas as Grandes Tradições de Sabedoria do mundo, tanto religiosa como espirituais.

Quando os que semearam a visão começavam a falar uns com os outros através de continentes e oceanos, e cruzando tradições e culturas, eles discerniram o fato de que a experiência deles, embora imensamente diversificada, era ,em última análise, praticamente a mesma. Todas as experiências partilhavam de um sentido de profunda interconectividade e unidade, além de uma unidade que transcendia as fronteiras de suas tradições religiosas, de seus panos de fundo culturais e de suas narrativas históricas.

Fonte: Kurt Johnson e David Robert Ord – A Chegada da Era Interespiritual