
Uma nova exploração
Uma nova exploração
Das práticas antigas aos conceitos modernos e a um setor em plena expansão – o bem-estar se transformou profundamente à medida que sua popularidade se espalhou pelo mundo.
Por séculos, pessoas de todas as partes do mundo têm tomado medidas para melhorar sua saúde e bem-estar: seja através do Ayurveda na Índia em 3.000 a.C., criando rotinas que vão do yoga à meditação para promover harmonia entre corpo, mente e espírito, ou pela abordagem holística das práticas tradicionais chinesas, como acupuntura, fitoterapia, qi gong e tai chi.
O bem-estar ganhou nova popularidade no final do século XX, quando as condições de vida contemporâneas passaram a gerar múltiplos desafios para a saúde e o bem-estar. Hoje, a palavra “bem-estar” já faz parte do nosso vocabulário diário.
O Global Wellness Institute (GWI) tem estado na vanguarda da definição e pesquisa sobre a indústria do bem-estar no século XXI. Ao definir setores como turismo de bem-estar e bem-estar no local de trabalho, suas pesquisas de mercado criaram novas oportunidades para inovadores, pesquisadores, investidores e consumidores explorarem o que significa estar bem.
Considerando que tantos aspectos podem ser incluídos em nosso bem-estar, definir essa indústria é, por si só, uma tarefa complexa. O que significa bem-estar hoje e para onde ele está caminhando?
Ophelia Yeung, economista e pesquisadora sênior do GWI, explica que, para definir “bem-estar” – que em 2008 ainda era uma indústria nascente –, primeiro ela precisou definir “spas”, algo que os consumidores sempre associaram ao bem-estar. Em alguns países, spas “tinham que oferecer tratamentos com água”, seguindo tradições europeias, diz ela. Mas em outros países, a definição inclui centros que oferecem massagens. Ao longo de uma década, sua equipe expandiu a pesquisa para definir e medir a economia do bem-estar e seus 11 setores:
• cuidados pessoais e beleza,
• alimentação saudável, nutrição e perda de peso,
• atividade física,
• turismo de bem-estar,
• medicina tradicional e complementar,
• saúde pública, prevenção e medicina personalizada,
• imóveis voltados ao bem-estar,
• saúde mental,
• spas,
• bem-estar no trabalho,
• fontes termais ou minerais.
Reunir todos esses elementos exigiu cuidado: algo muito amplo seria “sem sentido, mas se for restritivo demais, também não é útil”, acrescenta.
Yeung e suas colegas Tonia Callender e Katherine Johnston definiram bem-estar, segundo o GWI, como “a busca ativa por atividades, escolhas e estilos de vida que conduzam a um estado de saúde holística”. Em seguida, a equipe analisou nichos dentro do bem-estar e onde a indústria se cruzava com outros setores.
Por exemplo, Yeung descreve que definir turismo de bem-estar em 2013 foi um “esforço monumental”. Foi necessário dividir o setor em pessoas que viajavam com o único objetivo de vivenciar o bem-estar – turismo primário de bem-estar – e aquelas que incorporavam elementos de bem-estar, como uma massagem ou experiência culinária, em outra viagem – turismo secundário de bem-estar.
Depois de estabelecer essas definições, a equipe pôde calcular quantas pessoas faziam essas viagens e quanto gastavam.
O trabalho resultou na avaliação do mercado global de bem-estar em US$ 4,4 trilhões em 2020, com previsão de chegar a US$ 7 trilhões em 2025.
Ao atribuir valor à indústria, investidores podem enxergar onde estão as oportunidades, diz Yeung, apontando para companhias aéreas que agora oferecem aplicativos de meditação e hotéis que destacam a qualidade do sono como diferencial para atrair turistas de bem-estar secundários, que talvez nem soubessem que eram parte desse novo público.
Beth McGroarty, vice-presidente de pesquisa do Global Wellness Institute, acrescenta que algumas partes da indústria mudaram significativamente desde 2020, pois pesquisadores, consumidores e investidores reagiram à pandemia. “Agora eles atribuem maior valor à saúde e ao bem-estar, mas também estão mais céticos, reflexivos e exigem evidências”, diz ela.
A Covid-19 destacou o quanto a saúde individual e coletiva estão conectadas e, junto com os desafios mentais e sociais causados pelo isolamento, evidenciou a necessidade de considerar a saúde para além do físico.
McGroarty acompanha tendências do setor de bem-estar há 18 anos e lidera o Relatório Anual de Tendências do Global Wellness Summit. Ela afirma que, nesse período, houve uma “grande mudança cultural, antropológica e social em direção ao bem-estar”, mas os últimos dois anos foram particularmente interessantes.
“Acho que, com a gravidade da pandemia e o avanço das mudanças climáticas, vemos que o verdadeiro significado de bem-estar está sendo redefinido”, afirma. “Foi como uma mudança de vibração.”
McGroarty diz que, até 2019, havia uma abordagem de “fast fashion” no bem-estar, em que surgiam e desapareciam rapidamente tendências novas, muitas vezes absurdas. Desde então, o setor está mais calmo, com maior ênfase em soluções robustas e bem pesquisadas.
Ela destaca também o foco nas interações autênticas e presenciais. Durante a pandemia, nossas “vidas inteiras foram absorvidas pelas telas – trabalho, aulas de ginástica, meditação”, diz. “E agora há uma corrida por modelos de bem-estar social na vida real. Há uma explosão de clubes de bem-estar em que o social é mais importante do que o fitness ou a meditação.”
McGroarty compara essa tendência pós-pandemia a um movimento semelhante dos consumidores em 2008. “O primeiro ano em que fizemos nossa pesquisa [em 2008] foi o ano em que o smartphone chegou – e o bem-estar realmente decolou”, conta. “E acho que isso não foi coincidência. A explosão de opiniões, más notícias, pressões constantes das redes sociais e estarmos sempre presos a esse aparelho no bolso mudou nossas mentes, cérebros e vidas. O bem-estar surgiu como resposta a níveis de estresse sem precedentes.”
O próximo grande movimento, segundo McGroarty, será abordar a solidão, desconexão e reconstrução da comunidade, algo “nada fácil de fazer”. Mas, como há muito mais conversa sobre bem-estar hoje do que há 20 anos, quando as pesquisas começaram, Yeung e McGroarty esperam que os desafios se tornem menores e as oportunidades, maiores.
Fonte: Global Wellness Institute / BBC StoryWoks
Reflexão:
O texto fala de como a pandemia fez as pessoas buscarem bem-estar real, mais profundo, menos “fast fashion”. Essa é uma oportunidade para a espiritualidade emergir como pilar central do bem-estar autêntico. Espiritualidade não como religião institucional, mas como a reconexão com aquilo que nos faz sentir vivos, pertencentes e inteiros.
Na visão xamânica, bem-estar não é um produto, mas um estado de integração. É estar em harmonia com os ciclos da Terra, com o Sol e a Lua, com os animais e os elementos. É viver em reciprocidade – o princípio do Ayni andino – onde tudo que recebemos é devolvido em gratidão, serviço e cuidado.
O xamã não “vende” bem-estar: ele compartilha saberes para que cada pessoa se lembre do que já carrega em seu coração. Para o xamanismo, adoecemos quando nos afastamos do nosso propósito, da nossa comunidade e do nosso território interior.