O Xamanismo e o Maternal
Quando o Ego se Disfarça de Cuidado.
Na sabedoria ancestral do xamanismo, cuidar é uma expressão natural do Ser. O cuidado verdadeiro flui espontaneamente, sem esforço, sem expectativa e sem necessidade de retorno. No entanto, quando o cuidado nasce da carência, do medo ou da identificação com um papel, ele deixa de ser amor e se transforma em mecanismo do ego.
Uma pessoa muito maternal tende a cuidar dos outros de forma exagerada. À primeira vista, isso parece virtude. Em profundidade, pode revelar um desequilíbrio entre cuidar do outro e cuidar de si mesma.
Onde não há equilíbrio, surge o esgotamento.
E onde há esgotamento, há perda de essência.
O Ego Vestido de Amor:
O ego é sofisticado. Ele pode se disfarçar de cuidado, proteção e sacrifício — especialmente em relações familiares, como a de mães com filhos, mas também em amizades, relacionamentos afetivos e até contextos terapêuticos ou espirituais.
O problema não está em cuidar.
Está em precisar cuidar para se sentir alguém.
Quando o cuidado se mistura com apego, controle, identificação e necessidade inconsciente de validação, o amor perde sua liberdade.
Identificação com o Papel de Mãe:
Na visão xamânica, todo papel é temporário. O ego, porém, constrói sua identidade a partir dos papéis — e depois se perde neles.
O ego maternal se identifica com o papel de “mãe”, “cuidadora”, “a que sustenta tudo”. O problema não é ser mãe, proteger ou nutrir, mas confundir o papel com a própria essência.
Quando isso acontece, a pessoa passa a acreditar que seu valor, propósito e identidade dependem exclusivamente do outro.
E então:
• controla excessivamente
• impede a autonomia
• sofre quando o outro cresce ou se afasta
• usa o cuidado como forma inconsciente de manter importância
A Supermãe e a Ferida da Carência:
A figura da “supermãe” muitas vezes esconde medo e carência. O ego pode parecer amoroso, mas, no fundo, está tentando preencher algo em si mesmo.
Por trás do excesso de cuidado, podem existir:
• medo da solidão
• necessidade de ser indispensável
• busca de sentido através do outro
• desejo de controle disfarçado de amor
Esse tipo de amor, embora bem-intencionado, torna-se condicional. Ele doa, mas espera. Protege, mas prende.
Cuidar a Partir da Plenitude:
As tradições ancestrais ensinam que o cuidado verdadeiro nasce da plenitude, não da falta. Quando estamos conectados ao Ser, cuidamos sem nos perder.
Cuidar a partir da presença significa:
• respeitar o tempo do outro
• permitir a autonomia
• confiar nos processos da vida
• não se abandonar para sustentar alguém
O cuidado saudável não aprisiona.
Ele fortalece.
O Amor que Liberta:
No xamanismo, o amor verdadeiro não cria dependência. Ele cria espaço. Amar é permitir que o outro seja quem é — mesmo quando isso significa seguir um caminho diferente do nosso.
Quando o ego maternal relaxa, algo se cura profundamente:
• o controle se dissolve
• a culpa perde força
• a exaustão cessa
• a relação se torna mais leve
Cuidar deixa de ser obrigação e volta a ser expressão natural da alma.
A Cura do Maternal no Ego:
A cura do ego maternal não acontece deixando de amar, mas amando com consciência. Isso exige:
• presença
• autoaceitação
• autocuidado
• desapego do papel
Quando a pessoa cuida de si mesma com a mesma dedicação que oferece aos outros, o equilíbrio retorna.
A sabedoria ancestral do xamanismo nos deixa um lembrete essencial:
O amor que nasce da carência aprisiona.
O amor que nasce da presença liberta.
Você não precisa se sacrificar para ser amada.
Você não precisa se perder para cuidar.
Quando o ego solta o papel,
a essência retorna.
E o cuidado volta a ser o que sempre foi:
amor em liberdade.
Sabedoria Ancestral do Xamanismo para o Ego.
Quando o Ego se Disfarça de Cuidado.
Carlos Fernandes


