O Xamanismo e o Apego
Quando Confundimos o Que Temos com Quem Somos.
Na visão das tradições ancestrais, o apego é uma das principais fontes de sofrimento humano. Ele nasce no exato momento em que o ego se identifica com as formas: pessoas, objetos, papéis, status, ideias, crenças e até emoções.
Quando estamos apegados, confundimos o que temos, vivemos ou sentimos com aquilo que somos. E essa confusão cria medo, tensão e dor.
O Apego como Tentativa de Segurança:
O apego é, em sua raiz, uma tentativa do ego de se sentir seguro.
O ego teme a impermanência. Ele sabe, ainda que inconscientemente, que tudo muda, tudo passa, tudo se transforma.
Para compensar esse medo profundo, o ego se agarra às formas externas em busca de uma falsa sensação de permanência:
• relacionamentos
• posses
• títulos
• identidades
• crenças
• histórias pessoais
Mas tudo isso é transitório. E quando aquilo a que nos apegamos muda ou desaparece, surge a dor.
Todo Apego Carrega o Medo da Perda:
Todo apego carrega, silenciosamente, o medo da perda.
Mesmo quando estamos “felizes”, há uma tensão sutil sustentando essa felicidade: “E se eu perder isso?”
Esse medo constante gera ansiedade, sofrimento e vigilância emocional. A mente passa a proteger aquilo que acredita ser fonte de felicidade.
A sabedoria ancestral nos lembra:
Você não possui nada. Tudo é temporariamente emprestado pela vida.
A Impermanência como Verdade da Vida:
As tradições xamânicas ensinam que aceitar a impermanência não é pessimismo — é sabedoria.
A paz verdadeira só surge quando reconhecemos que tudo no mundo da forma é passageiro.
O sofrimento nasce quando resistimos a essa verdade e tentamos congelar o fluxo da vida.
Apego Não é Amor:
Um dos ensinamentos mais profundos deste tema é a distinção entre apego e amor.
O apego é resistência disfarçada de amor.
Ele tenta controlar, possuir, garantir, prender.
O amor verdadeiro, ao contrário:
• não prende
• não exige
• não controla
• não se agarra
Ele permite, confia e solta.
A consciência ama sem prender porque confia no fluxo da vida.
Viver as Formas Sem se Perder Nelas:
A libertação não está em rejeitar o mundo, mas em viver as formas sem se identificar com elas.
Você pode:
• amar
• criar
• trabalhar
• desejar
• construir
…sem se perder nisso.
A vida vem e vai.
As formas surgem e desaparecem.
O Ser permanece.
Isso é liberdade.
A Liberdade da Presença:
O apego diz:
“Não posso ser feliz sem isso.”
A presença diz:
“A felicidade já está aqui — com ou sem isso.”
Quando você habita o agora, não depende mais das formas para se sentir inteiro. A felicidade deixa de ser condicional.
O Treinamento do Desapego:
Desapego é um treino de consciência.
Não é negação, rejeição ou indiferença.
É maturidade espiritual.
O sofrimento que você experimenta na vida está diretamente ligado ao grau de apego às formas. Quando você se desapega da identificação com a forma, começa a experimentar a paz que vem do Ser.
O que você aceita completamente, você transcende.
O que você luta, você fortalece.
O que você resiste, persiste.
O Mundo como Espelho:
O mundo externo é reflexo do mundo interior.
Tudo o que parece sólido fora é projeção.
É um mundo de representação.
Quando você se desapega da forma, descobre que a verdadeira segurança nunca esteve fora.
A sabedoria ancestral do xamanismo nos entrega um ensinamento simples e libertador:
Desapego não significa não ter nada.
Significa não ser possuído por nada.
Quando nada te possui,
a vida flui,
o amor se expande,
e o sofrimento perde sua raiz.
Sabedoria Ancestral do Xamanismo para o Ego.
Quando Confundimos o Que Temos com Quem Somos.
Carlos Fernandes


