Filhos do Vento

A música sempre foi um dos melhores canais para falar das coisas que não podem ser faladas…

É a grande prece silenciosa que o homem tem usado desde a mais remota antigüidade para falar com seus ancestrais, com o mato, o fogo, o vento a chuva e seus aliados no mundo invisível, para falar sem palavras alem do tempo…

A música foi sempre uma poderosa medicina para os povos nativos e não um simples entretenimento. Só se tocava música para “parar o tempo”, prerrogativa exclusiva do músico/sacerdote nos nascimentos, mortes, celebrações, danças e rituais.

Para os nativos norte-americanos, o vento é o meio, o canal usado pelos nossos ancestrais da terra, a conexão com o nosso mundo físico.

Cavalgando o vento, eles nos visitam, podendo assim olhar-nos e inspirar-nos com vivências e emoções que estão além do tempo e do espaço – exatamente como a música.

Todos – animais, árvores e humanos – compartilham o mesmo ar.

As vozes humanas e as flautas utilizam o vento para viajar e chegar até nós.

Como tudo na mãe Terra, o vento está vivo e se comunica.

Pelo vento viajam conhecimentos, emoções, amor, preces sons e coisas que a mente não pode compreender. Há milhares de anos atrás os nossos ancestrais sorriam, amavam, dançavam, batendo tambores e cantando. Sem eletricidade, petróleo, telefone, fax ou computador, o homem se comunicava e aprendia, pois OUVIA!!!

Ficando em silêncio, podemos ouvir de novo esses tambores, esse fogo, a voz do vento e as músicas que ele leva.

Hoje, o homem, a música e a natureza estão poluídos e intoxicados. Uma quantidade incrível (e desconhecida) de informação e ruído intoxicam o homem: milhões de carros, aparelhos ligados, stress e tensão contaminam a bela Mãe Terra.

Melancolia, amores perdidos, raiva, agressão e os instrumentos mecânicos “tocados” por computador intoxicam a música. Tudo isso ocupa o espaço do silêncio, da irmandade, da alegria e da calma que o homem conheceu no passado, no mundo natural. Como pode o homem hoje desligar todo esse ruído, essa pressa e recuperar o silêncio e a beleza?

Através do som, da paz e da sensação de irmandade com o todo. O universo todo, as árvores, rios, nuvens, o brilho do olhar, o sorriso, o vento no rosto, o toque amoroso…

Tudo isso é musica. Uma música silenciosa, que não tem dono ou partitura – e se cria sozinha o tempo todo.

– NÓS SOMOS O INSTRUMENTO!!! –

Por isso hoje a música ficou longe da natureza, muitas vezes tão fria, melancólica, violenta, cheia de ruído e insatisfação, que parece difícil imaginar o músico de hoje como o Xamã que ele era no passado, onde ele abria portas a outras realidades, mundos paralelos, emoções sutis, harmonia e ligação com a Terra.

Essa mesma música natural e ancestral, como uma poderosa aliada da paz e irmandade, está voltando. O seu poder de cura é imenso e o homem está voltando a sentir isto.

O som que cada um de nós cria se espelha velozmente pelo mundo, e aqueles que trabalham na mesma freqüência vibratória nos respondem. Os anciões nativos que caminhavam em equilíbrio nesta terra não morreram pelo invasor branco.

Eles ficaram por perto, como espíritos, inspirando-nos e mostrando novos caminhos para amar, servir, honrar a vida de novo, e agradecer o sagrado fato de estarmos aqui. Os anciões da tribo galáctica estão cheios de amor e orgulho por sentir que nem tudo na Terra hoje é tão triste e violento como muitos querem nos fazer crer.

Tendo chegado o perto do limite de tolerância da mãe Terra todas as tribos estão se unindo e, acendendo novamente o cachimbo sagrado da paz, um grande fogo onde queimarão todos os ódios, racismo, limites, medos e preconceitos que nos levaram a esta situação, podendo de novo viver em paz.

Que o fogo sagrado aceso não se apegue, que a pureza da água e do ar possa beneficiar a todos os seres, que a tribo dos irmãos na paz tenham a força para acrescentar alegria, respeito e luz a este bonito planeta azul. Que nosso som, possa ter a força do trovão, amor da terra e a pureza de uma criança e a firmeza e a generosidade de uma irmã árvore.

Daniel Namkhay – 11/11/1999