Como o bem-estar está sendo modernizado na China

Como o bem-estar está sendo modernizado na China

A China tem uma rica história de práticas de bem-estar. Agora, uma nova geração está atualizando essas tradições.

O legado milenar da saúde integrativa:

A China é profundamente enraizada em uma tradição de bem-estar. Do chá ao tai chi, pode-se dizer que boa parte da cultura de autocuidado do Ocidente foi inspirada pelo Oriente.

Atualmente, a indústria de bem-estar chinesa vive um novo momento. De chás para reforço da imunidade a palitinhos de pão com colágeno para clarear a pele, houve uma explosão de produtos que prometem melhorar a saúde — e a Geração Z chinesa está adotando tudo isso com entusiasmo.

Uma geração acelerada, buscando equilíbrio:

Os jovens chineses trabalham longas horas — às vezes 60 a 70 horas por semana. Para relaxar, muitos recorrem a jogos online ou redes sociais, estendendo o tempo de tela até tarde da noite. Quando não estão no computador, estão em festas… mas esperam que estejam de volta à mesa de trabalho, com energia, no dia seguinte.

Esse estilo de vida levou a alguns hábitos prejudiciais, como o fenômeno conhecido como “報復性熬夜” (ficar acordado até tarde em retaliação) — uma tendência em que os jovens trocam o sono pelo tempo livre, como uma forma de “vingança” contra a rotina puxada.

Pequenos hábitos, grandes mudanças:

MeiXue Li, editora de vídeo de 22 anos de Guangzhou, conta que passa longos períodos sentada em frente ao computador, o que provocou problemas digestivos. “Estamos falando sobre tomar um copo de leite morno antes de dormir — pode ajudar no sono”, diz ela. “Outro método é se exercitar antes de dormir. Dizem que, se você suar o suficiente, dormirá melhor.”

Li faz parte de uma nova geração de consumidores chineses mais conscientes dos impactos de seu estilo de vida na saúde — e das possibilidades de se proteger.

Sua tia, que mora no Reino Unido, sugeriu o uso de probióticos. No passado, Li aliviava cólicas menstruais com analgésicos e açúcar mascavo em água quente. Mas, após pesquisar mais, descobriu o óleo de prímula como alternativa natural.

“A geração mais velha tem seus próprios modos de se manter saudável: acordam cedo, fazem exercícios ou caminham nos parques, e entre 19h e 21h saem para dançar nas praças. Já a minha geração busca conveniência, qualidade e diversão.”

Desafios de saúde e a busca por soluções modernas:

A China enfrenta um desafio significativo: até 2030, o número de doenças crônicas entre pessoas acima de 40 anos deve triplicar.

“Nos últimos 20 anos, a China passou por um crescimento econômico e urbanização extraordinários. Mas, como consequência, agora encara um desafio de saúde relacionado ao sedentarismo”, explica Zarina Kanji, chefe de desenvolvimento de negócios de saúde e bem-estar do Alibaba Group.

Hoje, 70% das doenças na China são crônicas e evitáveis.

Com isso, em 2016, a Organização Mundial da Saúde lançou o plano “China Saudável 2030”, com metas para reduzir a obesidade, o número de fumantes, incentivar a prática de exercícios e aumentar a expectativa de vida.

Como resultado, a população chinesa passou a dar mais atenção à saúde e busca formas práticas de incluir o bem-estar no dia a dia.

“A indústria de bem-estar da China está avaliada em US$ 683 bilhões, sendo o segundo maior mercado do mundo nesse setor”, afirma Kanji — e a maior parte das compras ocorre online.

Influencers e o novo consumo de bem-estar:

Embora o tempo de tela seja parte do problema, ele também mudou a maneira como os jovens chineses interagem com o bem-estar.

A plataforma da Alibaba conta com mais de 1 bilhão de consumidores ativos anualmente, usando seus aplicativos cerca de 9 vezes por dia por um total de 30 minutos.

“São jovens, com renda disponível, nativos digitais e apaixonados pela descoberta de marcas e produtos via livestreams”, diz Kanji.

Influenciadores virtuais e avatares em CGI promovem produtos como:

  • sorvete sabor brócolis,
  • balas de iogurte com centros ricos em cálcio,
  • snacks com compostos antienvelhecimento como niacinamida, colágeno e antocianinas.

“Beleza comestível” é uma tendência enorme na China.

“Parecer bonito é visto como caminho para o sucesso profissional e felicidade”, diz Kanji.

Esse movimento criou o que chamam de “economia do valor da beleza” — o foco é prevenir o envelhecimento, e não apenas tentar revertê-lo no futuro, como costuma ocorrer no Ocidente.

Consumidores-chave e autenticidade:

Para orientar os consumidores, surgem os “key opinion consumers” (KOCs) — jovens com grandes redes sociais que testam produtos e compartilham suas opiniões com amigos e comunidades em troca de descontos. Eles não são profissionais, o que transmite mais autenticidade.

“Eles têm influência real nos seus círculos e, às vezes, isso é mais eficaz do que influenciadores profissionais”, explica Joanna Zhou, gerente da Holland & Barrett na China.

Dados e percepção cultural refinada:

MeiXue Li é uma dessas consumidoras-chave.

“Os grupos com quem compartilho são amigos e conhecidas. Falamos de saúde, cosméticos, moda, vida feminina…”

Segundo Kanji e Shirley Song (Tmall Innovation Center – Alibaba), essas consumidoras ajudam marcas ocidentais a entender o mercado local, superando barreiras linguísticas e culturais, e alimentando dados qualitativos que são complementados com análise de consumo em tempo real.

Exemplo real:

Uma marca de cereais lançou uma linha com cinco ingredientes chineses pretos (gergelim preto, arroz preto, etc.) — todos associados a benefícios para a saúde. Resultado: sucesso de vendas.

“Esses ingredientes tradicionais são vistos com muita reverência”, diz Donna Li.

A fusão entre tradição e ciência moderna:

A medicina tradicional chinesa (MTC) não é exclusiva dos mais velhos. Pelo contrário:

“A Geração Z e os Millennials estão buscando soluções que combinam MTC com ciência moderna”, afirma Kanji.

Eles buscam produtos com mel, ginkgo, ginseng e goji berry — ingredientes milenares aliados à biotecnologia.

Exemplos:

  • Óleo de prímula, usado por Li para cólica, é direcionado a mulheres na menopausa no Reino Unido.
  • Luteína, suplemento ocular, é popular entre jovens chineses conscientes do excesso de tempo em telas.
  • Glucosamina, tradicionalmente usada por idosos, virou tendência entre jovens gamers que desejam articulações saudáveis para performance.

Tendências que podem influenciar o Ocidente:

A personalização cultural está moldando o futuro do bem-estar global.

Chás, cereais, balas, snacks e cosméticos funcionais — com ingredientes tradicionais e sabor agradável — já são realidade na China.

“O que é inovação lá, chega aqui logo depois”, diz Zhou.

“A China está à frente do Reino Unido nesse sentido.”

Li conclui com leveza:

“Quando saio para dançar com minhas amigas, é mais pela diversão do que por obrigação de cuidar da saúde.”

Fonte: Alibaba

Reflexão:

O bem-estar moderno na China vive um renascimento. Jovens urbanos, pressionados por rotinas intensas e jornadas exaustivas, buscam consolo em uma nova forma de medicina ancestral. Eles redescobrem a sabedoria dos seus antepassados — o chá quente, o ginseng, a dança noturna na praça — e reinterpretam esses rituais com um toque de inovação e leveza.

Mas esse movimento não é apenas um retorno cultural. Ele nos convida a lembrar algo que muitos já esqueceram: nós somos ritmo, nós somos natureza, e a cura começa quando nos alinhamos com ela.

O que a Geração Z chinesa nos mostra é que o futuro do bem-estar é ancestral.

Suplementos funcionais com ginseng ou goji berries, massagens energéticas baseadas em meridianos, e até chás adaptógenos em embalagens modernas — tudo isso resgata práticas milenares.

No Brasil, vemos movimento semelhante com a valorização de medicinas da floresta, plantas mestras e práticas bioenergéticas inspiradas nos povos originários.

A juventude está buscando medicina que faça sentido.

Aquela que respeita a natureza do corpo e a alma de quem sente.