
As irmãs visionárias pioneiras do bem-estar
As irmãs visionárias pioneiras do bem-estar
“Na verdade, se você não consegue cuidar de si mesmo, então será incapaz de cuidar dos outros.”
— Soeur Lise
Fundando o Le Monastère des Augustines:
Uma elevação rochosa projetando-se no Rio São Lourenço, com penhascos de até 100 metros de altura, parece um lugar improvável para se chamar de lar. Mas foi isso que os colonos que chegaram ao Quebec do século XVII encontraram.
Entre aqueles que vieram para este posto avançado do Império Francês estavam as irmãs Agostinianas e Ursulinas – dois grupos de religiosas cujo legado ainda pode ser visto na cidade até hoje.
“As irmãs agostinianas chegaram em 1639 e fundaram um hospital em 1644, considerado o primeiro hospital-monastério da América do Norte, ao norte do México.”
O hospital e o monastério ainda ocupam o mesmo local na parte alta da cidade, um pouco afastado do núcleo original de colonização. Hoje, graças a um legado deixado pelas próprias irmãs para a população, o monastério foi restaurado e transformado em um moderno centro de bem-estar – e seu sucesso se deve, em grande parte, àquelas primeiras mulheres pioneiras.
“Quando elas chegaram, estavam literalmente no meio do nada”, diz Robert Mercure, diretor-geral da Destination Québec Cité.
“A situação era difícil, por isso as pessoas precisavam ser muito inovadoras, resilientes e organizadas. A resiliência virou parte do DNA quebequense.”
As irmãs devem sua incrível longevidade à cidade que escolheram como lar. Quebec é única no continente norte-americano – a única cidade murada, com forte influência europeia na arquitetura. E, segundo o historiador e autor David Mendel, a cidade também tem sua própria filosofia de liberdade, flexibilida e bem viver.
“Em francês, isso é chamado de l’esprit – o espírito do lugar, não só no sentido físico, mas também imaterial.
A filosofia das irmãs inspirou e influenciou a cidade que ajudaram a fundar.
“Aqui seguimos os valores que sempre foram os das agostinianas: compaixão e acolhimento incondicional – não importa a região, o idioma ou a cultura de onde alguém venha”, diz Soeur Lise, uma irmã agostiniana com mais de 80 anos. “É um lugar aberto a todos.”
O monastério e o hospital mudaram com o tempo, mas as fundações das primeiras construções feitas sob orientação das irmãs ainda são visíveis.
“Elas não tinham formação em arquitetura ou construção, mas tinham muito bom senso”, diz Soeur Lise.
“E, mais importante, elas compreendiam profundamente as necessidades das pessoas doentes. Tudo foi construído em torno dessas necessidades – até o próprio desenho dos edifícios. Tudo tinha o objetivo de melhorar o bem-estar dos enfermos.”
Ela explica que, antigamente, não se fazia tanta distinção entre saúde física e mental como hoje. O antigo monastério era um lugar de bem-estar espiritual, mental e físico – e era administrado com essa visão. As irmãs cuidavam de tudo: construção, finanças, gestão de pessoal e, claro, os cuidados de saúde.
“O que hoje chamariam de abordagem holística, nós já praticávamos,” diz Soeur Lise.
Ela também oferecia suporte espiritual às famílias, aos médicos e aos próprios pacientes.
Uma abordagem colaborativa:
As irmãs administravam as enfermarias e frequentemente tinham mais contato com os pacientes do que os próprios médicos.
“Às vezes, um médico me pedia para acompanhá-lo ao leito de um paciente, talvez para dar uma má notícia”, conta ela.
“Os médicos ficavam no quarto por cinco minutos. Nós é permanecíamos nos dias seguintes com os pacientes.”
O ambiente hospitalar podia ser estressante para todos, mas as irmãs tinham preparo emocional e espiritual para lidar com essas situações. O próprio monastério oferecia espaços de restauração e equilíbrio.
“O mais importante é poder expressar como você está se sentindo a alguém”, afirma Soeur Lise.
“Para manter o equilíbrio, era essencial ter um lugar onde pudéssemos compartilhar palavras, trocar apoio e nos escutar.”
Ela lembra que os jardins do monastério eram silenciosos e calmantes. Quando tinha tempo, caminhava até o Rio Saint-Charles, afluente do Rio São Lourenço. A capela também era fonte de grande inspiração:
“Um lugar de silêncio extraordinário.”
Entrar no monastério restaurado transmite uma sensação profunda de paz e herança histórica – algo que, segundo Mendel, é compartilhado por toda Quebec. Mas nem sempre foi assim.
No fim do século XIX, houve um movimento para modernizar a cidade, o que incluía derrubar as muralhas fortificadas. Mas uma campanha em defesa do patrimônio inspirou-se na arquitetura medieval para preservar e expandir com respeito à identidade francesa da cidade.
Isso levou à construção de prédios icônicos como o Château Frontenac, inspirado nos castelos do Vale do Loire. Outros edifícios históricos, como o convento das Ursulinas (1639) e o Seminário de Quebec (1663), também foram preservados.
Restauração para os novos tempos:
Com o tempo, mudanças aconteceram. Menos mulheres ingressaram na vida religiosa, e em 1961 o governo assumiu maior controle do hospital. As irmãs permaneceram no conselho consultivo até os anos 1990, mas hoje o hospital é administrado separadamente.
Diante do declínio numérico, as agostinianas decidiram salvar seu legado espiritual e humanitário para as próximas gerações.
Hoje, o Le Monastère des Augustines é um espaço restaurado e reimaginado como centro de bem-estar, preservando a visão holística das irmãs pioneiras.
Assim como no passado, o foco permanece no equilíbrio entre corpo, mente, espírito e emoções, preservando também mais de 50 mil artefatos – entre instrumentos médicos e mais de 1 km de arquivos fotográficos e registros históricos.
Legado vivo para os cuidadores do presente:
Seguindo a missão original, o monastério apoia cuidadores familiares, profissionais da saúde, educadores e outros servidores comunitários, oferecendo programas de bem-estar especialmente voltados a quem dedica a vida ao cuidado dos outros.
“As pessoas de Quebec reconhecem a importância das irmãs agostinianas”, diz Mendel.
“Elas transformaram vidas desde que chegaram – e muitos ainda buscam cuidados no hospital que elas fundaram.”
Bem-estar holístico como futuro da saúde:
Hoje, a visão de saúde holística e personalizada volta a ganhar destaque.
Um novo polo de inovação em saúde sustentável está sendo criado em Quebec: o Vitam, fruto da colaboração entre a Universidade Laval e o Fonds de recherche du Québec. Com centenas de estudantes e pesquisadores, o centro foca em pesquisas intersetoriais sobre saúde e bem-estar regenerativos.
Enquanto isso, Quebec cresce como destino de turismo de bem-estar, reinventando o uso de suas instituições históricas sem perder sua missão original.
“O novo turismo pós-pandemia está evoluindo rapidamente”, afirma Mercure.
“E estamos muito felizes em evoluir junto.”
O bem-estar começa com o cuidado de si:
“Ser um pioneiro do bem-estar começa com o cuidado de si”, conclui Soeur Lise.
“Se você não consegue cuidar de si mesmo, então será incapaz de cuidar dos outros.”
Fonte: Le Monastère des Augustines – https://monastere.ca/en/
Reflexão:
No xamanismo, a cura é circular:
Na tradição xamânica, a cura não é um evento. É um ciclo.
Cuidar de alguém é entrar num laço sutil com seus ancestrais, suas feridas, seus sonhos. O xamã cura com a planta, com a canção, com o silêncio — mas também com a escuta ativa e a presença firme. Exatamente como as irmãs faziam.
Não por acaso, o espaço de cura tradicional — seja um maloca na floresta, uma tenda de suor ou um monastério — sempre foi mais do que uma estrutura física. Era um templo do invisível. Um lugar onde as emoções tinham voz, onde o tempo desacelerava e onde o sagrado podia se revelar.