O Xamanismo e a Defesa

O Ego Como Espírito Assustado.

Para as Tradições Ancestrais das Tribos das Américas, a defesa não é apenas um comportamento psicológico — é um sinal de desconexão espiritual. Quando um ser humano vive em alinhamento com o Grande Espírito, com a Terra e com sua verdadeira natureza, não há nada a ser defendido.
A necessidade constante de se proteger indica que o indivíduo saiu do centro da Roda e passou a viver a partir de uma identidade fragmentada.

Nas culturas indígenas, não existe a ideia de ego como conceito abstrato, mas existe a compreensão profunda de um “espírito ferido” ou “espírito assustado” — uma parte da pessoa que perdeu o senso de pertencimento à Totalidade.
Quando o espírito esquece que faz parte do Todo, ele entra em alerta.
E o alerta gera defesa.

A defesa surge quando o ser humano deixa de se perceber como:
• filho da Terra
• parte da Tribo
• expressão do Grande Mistério
Isolado, ele passa a lutar para existir.

A Vida em Tribo e a Ausência de Defesa:
Nas sociedades indígenas tradicionais, o indivíduo não precisava se defender para afirmar quem era. A identidade vinha do pertencimento, não da autoimagem.

A Tribo oferecia:
• lugar
• função
• reconhecimento
• espelhamento
Quando alguém errava, não era atacado — era reintegrado. Não havia a necessidade de justificar ou defender, pois o valor do ser não estava em jogo.
A defesa surge com a separação.
A comunhão dissolve a defesa.

O Guerreiro Ancestral Não Vive em Defesa:
Um ensinamento fundamental das tradições das Américas é a distinção entre defesa do ego e presença do guerreiro consciente.
O verdadeiro guerreiro:
• não reage por impulso
• não luta para provar valor
• não se ofende facilmente
• escolhe suas batalhas
Ele age quando necessário, mas não vive em estado de alerta. Sua força vem do enraizamento, não da reatividade.
A defesa constante é vista como sinal de fraqueza espiritual, não de força.

A Não-Reação Como Sabedoria Ancestral:
Para muitos povos indígenas, o silêncio é uma forma elevada de medicina. Falar menos, reagir menos e observar mais são expressões de maturidade espiritual.
A não-reação consciente não significa submissão.
Significa confiança no espírito.
Quando alguém provoca e não encontra resistência, a energia retorna ao ponto de origem. A defesa alimenta o conflito; o silêncio o dissolve.

O Ego e a Perda do Centro:
As tradições ancestrais ensinam que o ser humano possui um Centro — um lugar interno de equilíbrio, verdade e alinhamento com o Grande Espírito.
Quando alguém sai desse centro:
• reage demais
• se defende demais
• se justifica demais
• ataca ou se fecha
A defesa é o sintoma de que o centro foi perdido.
O Caminho não é reagir melhor.
É voltar ao centro.

O Ser Verdadeiro é Inatingível:
Um princípio universal nas tradições xamânicas das Américas é que o espírito verdadeiro não pode ser ferido por palavras, opiniões ou julgamentos.
Só a máscara se ofende.
Só o personagem se defende.
Quando o indivíduo sabe quem é, nenhuma crítica o desorganiza profundamente. Ele escuta, sente, discerne — e responde apenas se necessário.

A Defesa Como Ruptura com o Agora:
Para os povos originários, o agora é sagrado. A defesa nasce quando a mente sai do presente e entra na narrativa:
“Estão me atacando.”
“Estão me desrespeitando.”
“Preciso me proteger.”
No agora, não há inimigo.
Há apenas o que é.
Por isso, o retorno ao presente sempre foi uma prática central: através da respiração, do corpo, do contato com a Terra, do silêncio e dos rituais.

O Ensinamento do Conselho dos Anciãos:

Entre muitas tribos, o Conselho dos Anciãos valorizava profundamente a escuta. Quem reagia impulsivamente era considerado imaturo espiritualmente.
O ancião não se defendia.
Ele observava.
Sua autoridade não vinha da argumentação, mas da presença. Sua palavra tinha peso porque não precisava ser defendida.

A Cura da Defesa na Alma Contemporânea:
Para a alma moderna, desconectada da Tribo e da Terra, a defesa se tornou um modo de sobrevivência. Mas a sabedoria ancestral nos lembra:
Você não precisa viver em alerta.
Você não está separado.
Você pertence.

Curar a defesa é:
• restaurar o vínculo com o corpo
• reconectar-se com a Terra
• lembrar-se de que você não é sua imagem
• confiar novamente no fluxo da vida

O Convite Ancestral:
As Tradições das Américas nos ensinam que a verdadeira força não está em se proteger, mas em estar inteiro.
Quando o espírito lembra quem é,
não há mais nada a defender.
A defesa cai quando o Ser retorna.
E quando o Ser retorna, a paz se estabelece.

Sabedoria Ancestral do Xamanismo para o Ego.

O Ego Como Espírito Assustado.

Carlos Fernandes