O Xamanismo e a Justificação
Quando o Ego Usa a Mente para Fugir da Verdade.
Na sabedoria ancestral do xamanismo, existe um princípio claro:
tudo o que evita o agora fortalece a ilusão da separação.
A justificação, também chamada de racionalização, é um dos mecanismos mais refinados do ego para se proteger da verdade e manter-se vivo. Diferente de defesas mais visíveis, ela atua de forma elegante, lógica e aparentemente sensata.
É a mente criando histórias para não sentir, não assumir e não se expor.
O ego não foge apenas da dor.
Ele foge da vulnerabilidade.
O Que é Justificar?
Justificar é o ato da mente criar narrativas que defendem a identidade do ego. É quando a pessoa tenta explicar seus comportamentos, emoções ou erros de forma a preservar uma imagem positiva de si mesma.
O ego não suporta estar errado.
Ele precisa ter razão — mesmo que isso custe a verdade.
A racionalização é a mesma dinâmica em nível intelectual: argumentos lógicos e convincentes são usados para mascarar medos, intenções inconscientes e fragilidades. A mente não busca clareza — busca validar a própria história.
A Justificação Como Armadura do Ego:
Segundo a sabedoria ancestral, o ego usa a justificação como uma armadura de autodefesa com dois propósitos principais:
1. Evitar Sentir:
Quando surge uma emoção desconfortável — culpa, medo, vergonha — a mente entra imediatamente em ação:
• “Fiz isso porque era o certo.”
• “Não tive escolha.”
• “Foi culpa do outro.”
A mente argumenta para não sentir.
Mas toda emoção negada permanece viva no corpo, compondo o que as tradições chamam de corpo de dor. Tudo o que é reprimido se torna sombra — e a sombra cresce.
2. Manter a Autoimagem:
O ego depende da ideia de “quem eu penso que sou”. Para sustentar essa imagem, ele justifica comportamentos e cria personagens internos:
• O espiritualizado: “Eu estava apenas ajudando.”
• O vítima: “Ninguém me entende.”
• O salvador: “Eu só quis o bem.”
Esses papéis não revelam a verdade — apenas protegem o personagem.
O Labirinto Mental da Racionalização:
O ego não quer a verdade.
Ele quer manter a narrativa.
A racionalização cria um labirinto de explicações para evitar o contato direto com o agora. Exemplos sutis e comuns:
• “Preciso entender o porquê antes de deixar ir.”
• “Quando eu resolver isso mentalmente, vou me sentir em paz.”
• “Só fico irritado porque tenho razão.”
O pensamento pode explicar infinitamente.
Mas a verdade não está na explicação — está na presença.
Sinais de que o Ego Está se Justificando:
As imagens revelam sinais claros desse mecanismo em ação:
• Necessidade excessiva de explicar-se
• Repetição mental de diálogos passados (“eu devia ter dito…”)
• Busca constante por culpados externos
• Uso da espiritualidade como argumento defensivo
• Frases como “eu entendo tudo isso”, sem sentir o que está por baixo
Esses são traços do ego tentando reconquistar o controle narrativo.
A Saída Ancestral: Trazer Luz à Estratégia:
O xamanismo não ensina a lutar contra o ego, mas a iluminar seus mecanismos. A consciência dissolve aquilo que não precisa mais ser defendido.
Dois movimentos de conscientização emergem com clareza:
1. Observar sem Justificar:
Ao perceber uma reação, pare e sinta:
“Estou tentando me justificar agora?”
“O que há de tão ameaçador em simplesmente admitir o que é?”
Quando a consciência observa o impulso, ele enfraquece.
2. Aceitar o Agora sem Explicação:
A mente quer explicar.
A presença permite.
Nenhuma explicação muda o que é.
Quando a resistência mental cessa, o sofrimento se dissolve naturalmente.
A vida acontece apenas neste instante.
O Que a Justificação Tenta Proteger:
A justificação e a racionalização tentam:
• Proteger a autoimagem
• Evitar sentir dor
• Manter o controle
• Prolongar a sensação de separação
Mas cada vez que a mente tenta explicar o que é, ela se afasta da verdade do momento.
O ego não se dissolve quando é convencido.
Ele se dissolve quando é observado sem defesa.
Silêncio: O Território da Verdade:
A sabedoria ancestral nos lembra:
“A mente busca argumentos.
A consciência busca silêncio.”
No silêncio, não há justificativa.
No silêncio, não há personagem.
No silêncio, o Ser se revela.
Justificar é resistir ao agora.
Aceitar é atravessá-lo.
O Convite Final:
A verdadeira libertação não vem de explicar melhor a vida, mas de vivê-la com presença. Quando a justificação cai, a verdade não machuca — ela liberta.
Não é preciso defender quem você é.
Quando o ego silencia, o Ser permanece.
Sabedoria Ancestral do Xamanismo para o Ego.
Quando o Ego Usa a Mente para Fugir da Verdade.
Carlos Fernandes


