O Xamanismo e a Falsa Identidade
A Ilusão do Ego e o Chamado Ancestral para Lembrar Quem Você É.
Desde as tradições mais antigas do xamanismo, existe um entendimento claro: o maior aprisionamento humano não é externo, mas interno. Ele acontece quando o ser humano passa a acreditar que é aquilo que pensa, sente ou viveu. Esse aprisionamento tem um nome: falsa identidade.
A falsa identidade é o alicerce do ego. Não se trata de algo real ou vivo, mas de uma construção mental e emocional — um “eu imaginário” criado a partir do passado, das memórias, das histórias, das emoções e das comparações. É esse “eu” que diz:
“Eu sou o que aconteceu comigo.”
“Eu sou minha história, minhas conquistas, minhas dores.”
Para a sabedoria ancestral, esse “eu” não é o Ser. É apenas uma máscara de sobrevivência, criada pela mente para tentar se sentir segura em um mundo em constante mudança.
O Ego como Construção Mental:
O xamanismo sempre ensinou que o Ser verdadeiro é silencioso, amplo e anterior ao pensamento. Já o ego nasce da mente e se sustenta por narrativas. Ele não vive no agora — vive no tempo psicológico.
Quando a pessoa acredita ser a voz em sua cabeça, passa a viver uma ilusão: a falsa identidade mental. A mente pensa incessantemente e afirma: “Eu penso, logo existo.” Mas o pensamento é apenas uma função — não é o Ser.
A consciência ancestral nos lembra:
Você não é aquilo que pensa.
Você é aquilo que percebe o pensamento.
Identificação com Emoções: Quando o Sentir Vira Identidade:
Um dos principais mecanismos do ego é a identificação com as emoções. A pessoa deixa de sentir emoções e passa a ser as emoções.
“Sou ansioso.”
“Sou triste.”
“Sou calmo.”
Esses estados são transitórios, como o clima. Mas o ego os transforma em identidades fixas. A sabedoria xamânica ensina que você não é sua dor — você é a consciência que testemunha a dor.
Quando confundimos emoção com identidade, nos aprisionamos em ciclos repetitivos de sofrimento.
Papéis, Formas e Máscaras Sociais:
Outro pilar da falsa identidade é a identificação com formas externas. O ego precisa de referências visíveis para existir:
• O corpo: “sou bonito, feio, jovem, velho”
• O papel social: “sou terapeuta, mãe, empresário, vítima, buscador espiritual”
• A posse: “meu carro, minha casa, meu título”
Essas formas são temporárias. Quando mudam ou desaparecem, o ego entra em crise, pois perde o chão da identidade. O sofrimento surge porque o ego acredita que, sem essas formas, ele deixa de existir.
Para o xamanismo, tudo que é forma passa. O Ser permanece.
Os Três Combustíveis da Falsa Identidade:
A falsa identidade se mantém viva através de três pilares fundamentais:
1. O Passado
O ego vive de lembranças. Ele precisa da narrativa pessoal para existir:
“Quem eu fui.”
“O que me fizeram.”
“O que conquistei.”
Sem passado e sem história, o ego não sobrevive.
2. O Futuro:
O ego se projeta em ideais:
“Quando eu tiver aquilo, serei feliz.”
“Quando despertar, serei iluminado.”
Assim, foge do agora — o único lugar onde o Ser é encontrado.
3. A Comparação:
O ego só existe em contraste:
“Sou melhor que ele.”
“Sou pior que ela.”
Sem opostos, o ego perde sua referência. A comparação é a base da separação.
Os Sintomas da Falsa Identidade:
Enquanto a pessoa estiver identificada com o ego, certos estados se tornam recorrentes:
• Ansiedade e medo (o ego é frágil e teme desaparecer)
• Orgulho e defensividade (o ego precisa estar certo)
• Vergonha e culpa (o ego acredita ser separado e imperfeito)
• Solidão (o ego vive isolado da totalidade da vida)
A dor, sob essa ótica, não é punição.
É um sinal de que o falso eu está sendo confundido com o verdadeiro.
O Verdadeiro “Eu Sou”:
O oposto da falsa identidade não é uma identidade melhor. É o Ser.
O verdadeiro “Eu Sou” é silencioso. É a consciência anterior a qualquer forma, nome ou história. Antes de ser isso ou aquilo, você é o Eu Sou — a consciência que percebe tudo.
Quando a pessoa se ancora no agora, o falso eu começa a se dissolver, pois ele só existe no tempo psicológico e no pensamento.
O xamanismo sempre ensinou que despertar não é criar algo novo, mas lembrar-se do que sempre foi.
A Libertação Segundo a Sabedoria Ancestral:
A falsa identidade é o ego em ação — um “eu” criado pelo pensamento para substituir o silêncio do Ser. Trata-se de uma ficção coletiva, sustentada até que a consciência desperte para si mesma.
A libertação não é tornar-se especial, espiritual ou superior.
É reconhecer-se antes do nome, da forma e da história.
“A libertação não é tornar-se algo novo, mas reconhecer o que você sempre foi.”
Esse é o convite ancestral.
E também o maior desafio da alma contemporânea.
Sabedoria Ancestral do Xamanismo para o Ego.
A Ilusão do Ego e o Chamado Ancestral para Lembrar Quem Você É.
Carlos Fernandes


