Histórias indígenas sobre eclipses solares

Histórias indígenas sobre eclipses solares

Em um dia claro e ensolarado no sudeste do que hoje conhecemos como Estados Unidos — muito antes de existir o país — membros da Nação Choctaw notaram que o Sol começava a desaparecer lentamente, como se estivesse sendo devorado. Apesar de ser meio-dia, uma escuridão estranha tomou conta do céu: estavam imersos na sombra de um eclipse solar, chamado em choctaw de hvshi kania, ou “o sol vai embora”.

Pessoas correram para fora de suas casas, batendo panelas e gritando para o céu. Os gritos não eram de raiva, mas sim de defesa do Sol — reverenciado como o “olho de Deus”. Uma história tradicional Choctaw atribui esse sumiço temporário a esquilos pretos famintos conhecidos como Fʋni Lusa.

“Quando o sol começava a perder o brilho e se tornava escuro e obscuro, acreditavam que grandes esquilos pretos etéreos, movidos pela fome, estavam tentando devorá-lo”, explicou Israel Folsom, ministro choctaw e sobrevivente da Trilha das Lágrimas, segundo o Departamento de Preservação Histórica da Nação Choctaw.

“Com essa crença, achavam ser seu dever fazer todo o esforço possível para salvar o grande luminar do dia. Assim, todos — homens, mulheres e crianças — eram convocados a fazer barulho e espantar os esquilos.”

As pessoas atiravam paus e flechas para o céu enquanto gritavam para os esquilos irem embora. Quando o sol começava a voltar, os gritos se transformavam em comemoração:

“As pessoas gritavam Funi-lusa-osh mahlatah! — que significa ‘o esquilo preto está assustado’”, conta Dawn Standridge, pesquisadora cultural da Nação Choctaw.

Segundo ela, a história é mais compartilhada como tradição oral do que como um ritual contemporâneo, mas membros da comunidade celebraram esse legado no eclipse total do sol de 8 de abril de 2024. O evento foi realizado em Garvin, Oklahoma — bem na rota da eclipse total do sol — com a contação da história de Fʋni Lusa e muita celebração sonora.

Outras tradições de eclipse pelo continente:

À medida que a trilha do eclipse total do sol de 08 de abril de 2024 atravessava o México, os Estados Unidos (do Texas ao Maine) e o Canadá, outras comunidades indígenas também tiveram a chance de recordar suas tradições celestes únicas.

Na Nação Cherokee, ao norte da trilha do eclipse solar total, o evento é associado a um sapo gigante no céu. O artista e contador de histórias Robert Lewis lembra-se de ouvir do ancião Sam Nofire que o sapo, vez ou outra, tentava comer o Sol.

Durante eclipses, os Cherokee faziam barulho: batiam panelas, sacudiam chocalhos de casco de tartaruga e até disparavam armas de fogo — quando já as tinham. Hoje, a prática é mais voltada à contação de histórias do que ao barulho em si.

“Na última vez que contei essa história, avisei: ‘Certo, ninguém vai sacar armas, hein?’”, conta Lewis com humor.

Já entre os Diné (Navajo), a tradição recomenda o oposto: evitar sair de casa. Para eles, o eclipse representa a morte e o renascimento do Sol (Jóhonaa’éí), um evento sagrado que exige reverência. De acordo com o Instituto de Cultura, Filosofia e Governo Diné (Navajo), o protocolo inclui jejum, silêncio, evitar banhos, relações sexuais e manter os olhos abaixados — como os animais fazem.

“As ovelhas já sabem o que fazer”, diz Carlos Begay, professor navajo. “Elas param de pastar, abaixam a cabeça e se agrupam em silêncio.”

Ao final do eclipse, os Diné (Navajo) finalizam as orações de renascimento com a oferta e consumo de pólen de milho, honrando o retorno da luz.

Mitologias do Norte:

Mais ao norte, nas regiões dos Grandes Lagos, o eclipse também é lembrado por povos como os Ojibwe e Cree, que compartilham a lenda de um garoto chamado Tcikabis.

Segundo a astrônoma indígena Laurie Rousseau-Nepton, nos tempos antigos os animais eram os caçadores e os humanos eram as presas. Tcikabis sobreviveu com sua irmã e aprendeu a caçar. Um dia, notou uma presença quente o seguindo — era o Sol. Ele armou uma armadilha e prendeu o astro-rei. Vários animais tentaram soltá-lo: alces, caribus, aves (que tiveram as penas incendiadas), mas nenhum conseguiu. Até que um rato gigante como uma montanha mordeu a armadilha e libertou o Sol — sendo encolhido ao tamanho que tem hoje.

Em outra versão da história Ojibwe, o Sol se apaga durante um eclipse e a comunidade precisa atirar flechas flamejantes ao céu para reacendê-lo.

“Essas histórias talvez tenham surgido como forma de conforto diante do desconhecido, oferecendo uma narrativa para enfrentar fenômenos imprevisíveis”, diz David O’Connor, consultor de estudos indígenas em Wisconsin.

A sabedoria da Terra:

Para Robert Lewis, compartilhar essas histórias com indígenas e não indígenas é uma forma de ensinar como viver com mais respeito entre nós e com a Terra.

“A contação de histórias é parte da nossa cultura e ferramenta de aprendizado”, diz ele. “Nossa cultura nativa gira em torno de respeitar a todos e à paisagem que habitamos.”

Fonte: Roxanne Hoorn – Atlas Obscura

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